Coca-Cola

Minha família é bem numerosa. Tenho vários tios, que tem vários filhos, que estão se tornando pais. Minha infância foi uma delícia, cercada de primos, de brincadeiras, discussões, risadas e tombos. Dentre todos os primos que tenho, a que mais fiquei amiga foi a Cynthia. Nossa diferença de idade é de 40 dias e desde pequena fomos inseparáveis. Sempre estudamos na mesma escola. Em geral, passávamos as tardes uma na casa da outra. Fazíamos a lição rapidinho para ir brincar. E aí começam os problemas: meu primo Bob. Mais novo, a diversão dele era destruir a nossa. Montávamos uma casinha de boneca linda e, em questão de segundos, ele colocava tudo abaixo. Corríamos em volta da casa da minha tia (que era enorme!) atrás dele, que muito mais rápido e esperto, pulava para dentro da casa por alguma janela, enquanto continuávamos correr até perder fôlego. Outro dom que ele tinha, era esperar que subíssemos no alto da árvore e então nos dava um susto. Ficava lá embaixo, rindo das nossas quedas espetaculares. Algumas vezes, quando chovia, ele se juntava as nossas brincadeiras: criávamos um circuito na sala de estar, virávamos o sofá para baixo, empilhávamos as mesinhas, enfim, destruíamos a sala. Fazia sol e o tormento voltava. Lembro de um ano em que ele passou um trote para a polícia – adorava passar trotes. O policial falou que ia prendê-lo e ele se escondeu embaixo do carro. Foi um ano incrível. Ele ameaçava acabar com a nossa brincadeira e gritávamos: POLICIA! E ele corria pra debaixo do carro. Mas a verdade é que gostávamos dessa dinâmica e logo paramos de chamar a polícia. Minha tia NUNCA brigou conosco. Tinha uma paciência de dar inveja. E quando contávamos tudo o que o Bob tinha feito, ela caía numa gargalhada. Crescemos, a Cynthia foi morar no Rio e o Bob e eu passamos a trabalhar juntos. Ele continuava com o mesmo senso de humor. Deixei de ser o alvo – acho que sem a Cynthia não tinha graça – mas riamos de tudo. Quando ficava brava com alguma coisa, lá ia ele, imitar ou tirar sarro de alguém e pronto: caíamos na gargalhada. Até que um dia, um caminhão da Coca-Cola atravessou na sua frente. E ele não resistiu. As gargalhadas se transformaram em dor, em vazio, em silêncio. Tia Marlene, a minha Ti, aquela que nunca perdeu a paciência conosco, também não perdeu a serenidade. Nunca vi alguém sofrer tanto. De alguma forma ela conseguiu transformar esse sofrimento em amor. Hoje ela é voluntária da APACN e ajuda crianças com neoplasia. Ainda dá suas gargalhadas quando lembramos do Bob, mas agora acompanhada de lágrimas. Ti, sei que há 9 anos você não escuta isso do Bob e sei também que não é a mesma coisa, mas eu te amo. Muito. Ele jamais poderia ter tido uma mãe melhor. Um Feliz dia – para aquela que continua sendo uma inspiração e um exemplo – das mães! (RM)

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Autor:reparei

"Se podes olhar, vê. Se podes Ver, repara." (José Saramago)

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8 Comentários em “Coca-Cola”

  1. Sarah
    09/05/2011 às 21:01 #

    Me junto a voce para dar feliz dias das maes à ela, pois penso que a dor dela deve ser intramontavel.

  2. 09/05/2011 às 21:01 #

    Lembro disso com tristeza porque acompanhei de perto. Fiz o que era possivel. Desculpe se não consegui. De um beijo de muito carinho na tia Marlene. Bjo.

  3. Suzana
    09/05/2011 às 21:01 #

    Eu sei q dor que ela passou. Eu tbm perdi um filho e minha mãe tbm perdeu uma filha. O meu tinha 1 ano e 9 meses e minha irmã tinha 17 anos.
    Quando minha irmã faleceu, eu tinha 6 anos. Me lembro muito bem do dia do acidente.
    Do meu filho, não consigo nem falar, que as lágrimas caem…
    Mas Deus nos dá uma força descomunal para enfrentarmos essa dor, que é a maior que passei até hoje…

    • 09/05/2011 às 21:01 #

      Obrigada pelo comentário solidário Suzana. Bjs

  4. Marlene Schuh
    09/05/2011 às 21:01 #

    Nane, querida! As lagrimas não me deixam comentar nada. Obrigada pelo teu carinho e amor. Te amo e sinto muita falta de você. bjs. Ti.

  5. Ana
    09/05/2011 às 21:01 #

    Preciso aproveitar a oportunidade para declarar minha admiração por essa pessoinha que mesmo com um sofrimento deste tamanho deu a volta por cima, voltou a sorrir e ser feliz sem que o amor e a saudade abandonem seu coração.

  6. Rafaele
    09/05/2011 às 21:01 #

    Mae Marlene, vc merece todo esse carinho e muito mais! uma pessoa incrível… bjo

  7. Marlene
    08/07/2011 às 21:01 #

    Realmente minha irmã é uma pessoa extremamente sensível e maternalista que a despeito de tanta dor encontra força para voltar a sorrir e estender a mão a quem precisa de sua ajuda.
    Eu também a admiro muito e a amo demais.

    Maura

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