arquivo | maio, 2011

Carinho pelo caminho

Vem chegando o verão em Nova York. Os moradores saem da toca. Munidos de sanduiches, cafés king size, seus livros e seus cães, eles vão sentar no parque. Lá fui eu também, fingir que sou um deles, na maior cara de pau. Durou bem pouco o meu semblante-paisagem. Foi só sentar no primeiro “bench” pra perceber que aquele não era um bench qualquer. Era o banco de alguém. No meio do Central Park gigante me deparei com pequenas declarações, muito particulares e lindas. Uma em cada banco. Pessoas que por ali passaram e ali sentaram. Pessoas que já se foram mas que lá existem e resistem, gravadas em metal, pra quem quiser admirar, lembrar…ou apenas se recostar no banco de alguém especial. De banco em banco descobri mensagens incríveis. Me deu vontade de passar o dia inteiro zanzando por lá, lendo e sentando, lendo e sentando. Fotografei algumas placas, no caminho entre o hotel e o Metropolitan. Já no museu, vi duas retrospectivas marcantes: Alexander McQueen: Savage Beauty, e  os desenhos de Richard Serra. Dois famosos. Mas o tempo todo essa outra exposição não me saiu do coração.  (RL)






O luxo e o lixo

Há um tempo atrás vi uma pesquisa sobre quais seriam as maiores preocupações dos entrevistados. Nos países desenvolvidos essas preocupações eram voltadas para o bem comum, como a sustentabilidade, por exemplo. Aqui no Brasil, giravam em torno de necessidades primárias: moradia, emprego, saúde… É impossível pensar no todo, enquanto o mínimo não é garantido. Pensando no coletivo, foi aprovado ontem pela Câmara Municipal de São Paulo a proibição do uso das sacolas plásticas descartáveis – aquelas do supermercado. E dentre todos os impactos abordados, não pude deixar de reparar nas donas de casa, que indignadas, perguntavam como iriam tirar o lixo de suas casas – o saco de lixo é para elas um artigo de luxo. O lixo, sem dúvida, é um problema seríssimo. Atribui-se a ele inclusive esse projeto de lei: 11 mil toneladas todo dia em São Paulo, em sua maioria, dentro dessas sacolinhas. Nocivas ao meio ambiente, aliadas das donas de casa. O bem comum ou necessidades individuais. O que vem antes? Esse curta premiado em Berlin mostra uma outra faceta desse vilão do meio ambiente. Como sempre, tudo tem dois lados.  (RM)

 

Valeu o dia

Tarde chuvosa em Manhattan, entrei no cinema. L’Amour Fou, um documentário sobre a vida e a obra de Yves Saint Laurent, narrada por seu parceiro Pierre Bergé. O filme começa com Yves anunciando sua despedida do mundo da moda. Yves aparece velho, cansado e atormentado. A cena seguinte é a do enterro, em 2008. Dessa vez é Pierre quem se despede. Chorei um pouquinho. Impressionante como eu não sabia nada nada a respeito do garoto tímido, do gênio precoce, da sua paixão por arte, por Proust, dos problemas com álcool e drogas. Pierre conta que Yves só era feliz 2 dias por ano, exatamente quando terminava de apresentar suas coleções. No mais era um poço de angústia. Chorei mais um tico. O casal tinha uma casa azul em Marrakech, pra onde fugiam entre uma temporada e outra. Viveram juntos na Rue Babylon em Paris, nessa casa  em Marrocos e em outras “maisons” francesas, no auge do jet set europeu. Yves se esbaldando e Pierre cuidando, durante 50 anos. Esse homem, Pierre, é de uma elegância suprema. Ficaram muito ricos, compraram obras de arte, esculturas, móveis, vasos e objetos importantes. Quando Yves apresenta seu vestido com estampa Mondrian, nem sonhava um dia possuir telas originais do artista. O documentário mostra todo esse acervo sendo embalado pela Christie’s. Eu chorando. Pierre é um homem apegado ao que viveu com Yves, não ao que acumulou com ele. As cifras do leilão, pinceladas no final, são emocionantes. O valor total não sabemos. Aliás achei super correto o diretor omitir esse detalhe. Chique mesmo. Como YSL.              (RL)

(Em SP, estava em cartaz no Shopping Frei Caneca!)

Lembranças

Organizando minhas fotos, tentei organizar minhas memórias. Procurei seguir uma linha do tempo, retomar minha história, mas minhas lembranças vêm em flashes. Lembrei de vários momentos em detalhes, mas não sei o que veio antes e o que veio depois. Descobri que eu, que adoro biografias, jamais poderia fazer a minha. E isso me causou uma certa perturbação. Só conseguiria contar a minha vida separando primeiro os bons e depois os maus momentos, como se eles não tivessem acontecido de forma aleatória. Em nenhum momento da minha vida tudo foi só bom, ou só ruim, mas é assim que me lembro. As vezes minhas lembranças nem parecem fruto da mesma história. Tentei desistir. Queria parar de lembrar, mas não consegui. Lembrando, lembrando, lembrei desse fragmento do livro Grande Sertão Veredas:

“A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não misturam. (…) Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data. O senhor mesmo sabe; e se sabe, me entende.”  Guimarães Rosa

(RM)

Pensamento prático

Feitiço

Desde sempre a humanidade se enfeita com ouro, diamantes e pedras. Não sei explicar que fascínio é esse só sei que é bem fácil senti-lo…na pele. Numa vida passada, fui publicitária e atendi a conta da HStern. Eu que nem sou perua nem nada, fiquei possuída. Por sorte o cliente não gostou do trabalho da agência e pude sair desse transe antes de entregar meu irmão menor em troca de um brinco de brilhantes. Nunca mais quero atender conta de joalheria. Descobri que a pedra que coloquei em cima dessa experiência era do tipo esmeralda.  Ficou lá brilhando, verdinha que só,  aguardando pacientemente um novo contato. Socorro! 15 anos depois continuo totalmente vulnerável. A exposição “Set in Style – The Jewelry of Van Cleef & Arpels”, em cartaz até o começo de julho no Cooper Hewitt Museum, em Manhattan, destampou meu passado brilhante. Estão lá joias que pertenceram a Greta Garbo, Evita, Grace Kelly, Jackie O., Maria Callas, Elizabeth Taylor e Marlene Dietrich. Há  mais de cem anos a Van Cleef & Arpels  irradia seu glamour pelo planeta com joias  que renovaram a  técnica , o estilo e, principalmente, a paixão entre homens e mulheres. Joias muuuuuuito preciosas. Saí de lá pirada e inspirada.  Alguém por favor avise meu marido que “vou estar tendo” uma recaída.   (RL)

Na saúde e na doença, na alegria…

Ontem fui assistir um desses filmes de comédia romântica. Confesso que toda semana assisto pelo menos um, minhas filhas amam. Enfim, o que me intriga é essa obrigação, que principalmente os filmes americanos demonstram, de que só seremos felizes com alguém ao nosso lado. Lembro de uma amiga que perto dos 40 ainda não tinha casado. Sofria uma pressão familiar absurda. Em nenhum momento ela desacreditou no amor ou algo assim. Mas achava complicadíssimo escolher alguém para passar o resto da vida. Preferia continuar na segurança da sua solteirice. Mas a família pressionou e ela acabou casando. Casada, a preocupação da família eram os filhos. Essa guerra ela está ganhando. Não sei se hoje ela é mais ou menos feliz. Mas acho triste essas menininhas que assistem esses filmes, acreditarem que a felicidade reside na obsessiva busca do outro. (RM)

O gato subiu no telhado

Performance GGG:  Em nome do gato, do gordo e da grana!  Spring Street, Manhattan, hoje, 4 da tarde.


Conservado em sal

Vai entender como um restaurante bem do cafona, que serve  sanduiches com intransponíveis 15cm de recheio,  fatias de cheesecake colossais,  promove competições de “quem come mais pepino” e que tem como logomarca um senhor gordinho, careca e de óculos, com um picles gigante apoiado nos ombros…vai entender como sobrevive até hoje em plena 7th. Ave. de Manhattan.

                                               Reparem na estética do guardanapo.

                                             Observem a delicadeza do couvert.

                                                Imaginem que delicia de digestão.

Esse é o Carnegie Deli, famoso pelo pastrami , pelos pepinos em conserva, pelas sobremesas e, na minha opinião, famoso só por sobreviver até hoje nessas condições. Pra que ninguém duvide da força do lugar, a parede é lotada de fotos autografadas , de celebs que passaram por lá desde 1937 até hoje . Enfim,  os marqueteiros que expliquem. Eu só fui lá pra reparar!   (RL)

Morte súbita

Quando pequena, meus irmãos e eu brincávamos de escolher, dentre duas situações tenebrosas, a menos pior. Quem desistisse antes, perdia. Meu pai tinha um funcionário de serviços gerais, totalmente desdentado – e sem muito asseio – chamado Antonio. Funcionava assim: você prefere passar por uma avalanche ou cair de avião? Prefere nadar no mar cheio de tubarões ou num rio com piranhas? E assim íamos escolhendo nosso destino, até que meu irmão usava seu golpe baixo: prefere ser enterrada viva ou beijar o  Antonio na boca? As duas situações eram insuportáveis, então desistia. Ele sempre ganhava. Fosse hoje, com tsunamis, tornados, vulcões, a mente fértil do meu irmão traria situações ainda mais terríveis. Essa semana lembrei dessa brincadeira. Se ele me perguntasse: prefere beijar o Antonio ou o Bolsonaro? Antonio, com prazer! (RM)

 

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