arquivo | julho, 2011

Sushi da sorte

O que aconteceu terça feira só pode ser coisa do além mas juro que é verdade. Saindo do hotel no Rio pedi pra minha filha tirar as duas correntinhas do pescoço. Guardei na bolsa, dentro do estojo do óculos escuro. Almoçamos felizes no Sushi Leblon. Quando fui trocar de óculos, já quase saindo do restaurante, cadê as correntinhas? Esvaziei a bolsa e nada. Chamei o garçom, veio o gerente, o sushiman, todo mundo agachado, procurando. Nada. Fui embora arrasada e a Ju firme, mantendo a compostura apesar do nó na garganta. As duas correntes eram MUITO queridas. Caminhando pela calçada, não me conformei. Ligo pro restaurante e – ufa – as joias estavam lá, achadas no vão do sofá onde sentamos. Demos meia volta, que alivio. O gerente, gentilíssimo, me entregou as correntes dentro de um guardanapo de papel dobrado. Dessa vez colocamos o pacotinho na bolsa, dentro do compartimento com zíper. Problema resolvido pegamos um taxi em direção ao centro da cidade. Na altura da Av. Rio Branco, já bem longe do Leblon, toca o meu celular. Era o gerente do restaurante. “Renata você não quer mesmo as correntinhas né?” Como assim? “Encontramos as duas na calçada, em frente ao restaurante”. Abri o zíper, desdobrei o guardanapo, engoli um ponto de interrogação e outro de exclamação. Comprei uma flor, fiz um cartão pro gerente, fui buscar as correntes pela segunda vez – agora num papel dobrado e grampeado- e desisti de entender como pude ser tão desastrada. Mas acho que entendi uma coisa: mais valiosa que as joias precisa ser a reflexão a respeito do episódio.   (RL)

Sonhar não custa nada!

Sempre invejei o envelhecimento masculino: sem estrias, sem celulites, sem pés de galinha. Ou ainda que tenham tudo isso, não lhes faz a menor diferença. Pois bem, estava lendo uma pesquisa sobre homens e mulheres. Na verdade são duas pesquisas distintas, mas os resultados se complementam. Na primeira, os pesquisadores tentavam encontrar as possíveis causas para o infarto masculino na meia idade. E descobriram que os homens, ao chegar nessa fase, avaliam o seu legado: o patrimônio, a formação dos filhos, o casamento… e ao concluir que deixarão um bom legado, sentem que o dever está cumprido e seguem vivendo, sem muitas aspirações. Na pesquisa sobre as mulheres a intenção era descobrir as possíveis causas do Mal de Parkinson. E descobriram que, nós mulheres, nunca deixamos de sonhar e ter pelo menos, um objetivo. Quando isso acontece estamos fadadas não apenas ao Mal de Parkinson, mas a uma série de outras doenças. Portanto que venham as estrias, as celulites e os pés de galinha. Prefiro envelhecer sonhando… (RM)

Mixed Feelings

Retifico o que eu disse recentemente sobre adorar as sincronias do destino.  Claro que coincidências felizes  são muito bem-vindas mas quando começa a dar tudo errado, em série, aí a sincronia vira sacanagem pura. Vejam só: sexta feira minha empregada saiu de férias, domingo meu marido levou um tombo à cavalo (nem bem sarou do olho), e hoje eu embarco pro Rio. Fica ele sozinho, avariado, sem comida e sem Copa América. Fico eu culpada, preocupada e pronta pra descarregar no chocolate. Essas coisas, respeitadas as devidas proporções,  despertam em mim um pequeno pânico. Sentimentos estranhos pairam no ar. Raiva do cavalo, do topete do Neymar , da palavra férias e até da letra do médico no receituário. Os outros não sei mas a letra merece sim. Demorei um tempão pra decifrar “abdômen inocente e diurese clara”. Inocente quem cara pálida? Bom, mas pelo menos o enigma serviu pra me içar de volta ao bem estar. É que imagino que dessa vez, enquanto eu estiver fora, o marido vai ficar ultra tranquilinho, bem estacionado em casa.   (RL)

Felizes para sempre

Quanto mais vivo, mais acredito que devemos nos despir de nossos preconceitos. Estou arrasada porque um romance que estava lendo terminou. Sim, um romance. Qualquer um que me conheça melhor sabe que não é o tipo de leitura que, em teoria, aprecio. Mas esse eu amei. E amei principalmente porque mistura todos os ingredientes que repudio: a heroína, a história inverossímil, o final feliz. Carregava na bolsa e qualquer 5min livres eram suficientes para aproveitar e ler um pouquinho mais sobre a saga de Sira Quiroga. E agora, nos despedimos. Estou arrasada tal qual uma criança quando termina de assistir um filme da Disney. Se duvidar vou repetir mil vezes essa história até decorar os diálogos e saber tudo o que vem a seguir, como as crianças fazem. Aliás, não é a toa que elas preferem o conto de fadas: o mundo real se mostra tão mais difícil! Afinal, me despedir ontem da Sira foi triste. Mas me despedir novamente do meu marido… ai ai! Quero logo meu final feliz! (RM)

Mil mandingas

Acho a maior graça em crenças populares, principalmente as simpatias. De onde será que elas vem? Experimente dar um google na palavra simpatia. O que aparece são praticamente sites de culinária. Mas como hoje em dia quase tudo é pilantragem então escolho me apegar às receitas caseiras. Com certeza são mais ingênuas, tem raizes espirituais e até experimentais.  Me lembro de uma. Pra tirar verruga é só esfregar um pedacinho de bacon nela e depois colocá-lo em cima de um formigueiro. Pronto, assim que as formigas comerem o bacon a verruga cai. Ouvi dizer que pra verruga isso é folclore mas pra “berne” funciona sim.  Quem quiser arrumar namorado basta virar Santo Antônio de cabeça pra baixo. Não sei quanto tempo o coitado tem que ficar nessa posição. Se não der certo, prenda a sua foto junto com a do pretendido dentro do açucareiro, também de ponta cabeça. Só tire quando o amor der as caras. Criança com sarampo tem que cobrir com manta vermelha e dar chá de sabugueiro. Bom, o fato é que atualmente ninguém mais quer saber de simpatia simples. A coisa evoluiu. Hoje tem física quântica, com varetas energizadas que resolvem quase tudo. Tem também o Feng Shui chique com seus sprays  e florais de purificação. Um deles se chama “Calling all Angels” e promete deixar sua aura limpinha e desimpedida. Existem mil maneiras de preparar uma ajudinha. Em beneficio próprio, ajuda pro bem  de alguém ou ainda, poções que prejudicam. Mas aí esbarramos em bruxaria e antes de falar disso vou ao cinema e já volto! Expecto Patronum, Aresto Momentum, Levicorpus Santo Antonio?  (RL)

Muito agradecida aos que responderam minha mini pesquisa, colaborando com esse post.

Baia 8

Como escrevi aqui esses dias, fui assaltada. Levaram apenas minha carteira. Detalhe que lá estavam TODOS os meus documentos e das meninas. Detalhe que estou no Rio e naturalmente preciso desses documentos para voltar à São Paulo. Liguei para o aeroporto e  informaram que conseguiria embarcar com o BO, desde que retornasse nessa mesma semana.  Mas retorno apenas dia 01/08. Ou seja, preciso ter os documentos em mãos. Fui em um posto de identificação, onde deram de ombros e explicaram que seria impossível entregar a documentação em tempo hábil. Se recusaram também em fornecer um documento que comprovasse minha tentativa em consegui-los. Ou seja, em um dia refém de um assalto. Em outro refém da burocracia. Em ambos refém do descaso. Se no assalto é de se perder a confiança nas pessoas, ao precisar de um órgão público é de se perder a confiança no país. Com raiva, impotente e descrente de uma solução rápida para meu imbróglio, recebo uma ligação. ‘Falando aqui Duda. Duda Baiano. Achei uma carteira jogada. Tem documentcho intão achei que vossa senhoria devia tá na precisão deles. Inda mais quando vi os documentcho das filhotinha. Tá tudo inteiriço.” E então marquei um encontro com Duda Baiano, que trabalha no  Jockey cuidando de cavalos. E ele devolveu minha carteira. Devolveu também a crença nas pessoas. E principalmente, a esperança de que nosso país ainda tem jeito! (RM)

Estrogênio, eu te odeio


Socorro. Faz 15 dias que eu não corro. Por que será que Deus me fez assim tão indisciplinada? Se retomar é de matar por que diabos resolvo ficar estacionada? Raios. Quando estou em forma até dá pra rimar correr com prazer. Fora de forma é um suplicio. Me sinto um estrupício. Só sei que hoje em dia tudo o que eu faço de errado, o culpado é algum hormônio. Testosterona, estrogênio, progesterona, estou de mal total com vocês três. Mas hoje sem falta eu vou lá. Tênis no pé, I-Pod, boné. Hoje tenho certeza que minha natureza centrada e controlada vai despertar da moleza. Vou mostrar quem manda e  desmanda, pelo menos aqui no Itaim Bibi.

Pensando bem, amanhã é um dia mais apropriado. Meu querido sábado, saiba que você está jurado. Combinei, fechei. De sábado não passa. Darei um olé nessa crise de bigorna que não orna e não me pertence. Pela quinquagésima vez vou trotar atrás da minha sina, a maledeta endorfina. Ou não. Nem vem. Posso brigar com ela também.

Me dou um trabalho danado. Mas pelo menos acho graça nessas rimas fáceis.  (RL)

Mãos ao alto

Ontem fui assaltada. De novo. Quando roubaram meu carro fiquei andando na vaga vazia, de um lado para o outro. Em outra oportunidade, sob mira de um revólver, perguntei se eles (os ladrões) pretendiam demorar muito, pois estava atrasada para uma reunião. E dessa mesma forma me comportei em outros roubos. Essas atitudes débeis tomam conta do meu comportamento num primeiro momento. Ontem, quando percebi que minha carteira não estava na bolsa, refiz o caminho, falei com estranhos, descrevi a carteira várias vezes, sem sucesso. Voltei para casa e procurei pela carteira nos lugares mais absurdos, em vão. Até a ficha cair e eu aceitar que sim, mais uma vez, havia sido assaltada. A dor de cabeça de estar em uma cidade estranha, sem nenhum documento, sem dinheiro, sem cartão do banco e sem cartão crédito, não é maior que a terrível sensação de vulnerabilidade. Ainda que o fracasso já tenha rondado nossa vida, somente quando somos assaltados ou temos nossa vida ameaçada é que verdadeiramente nos sentimos um nada. Sinto como se levassem, além dos meus bens, minha dignidade. Enfim, o negócio é ter a cabeça no lugar e manter a serenidade. Afinal nem posso ter um piripaque: lá se foi também a carteirinha do plano de saúde!! (RM)

A vida de Pi e de nossos meninos

Estava eu sem rumo e sem livro quando pesquei na prateleira “A Vida de Pi”, de Yann Martel. Me lembro de ter escutado elogios tempos atrás então resolvi arriscar. Super bem escrito, super interessante, super diferente. É a história de um menino hindu que fica à deriva no Pacifico, ele e um tigre de Bengala. O enredo mistura delicadamente conceitos de religião e zoologia, confronta os instintos de sobrevivência humano e animal com “cenas” muito reais apesar do absurdo da situação. Numa minúscula jangada o menino se vira. Enquanto isso, na vida virtual, alguns amigos do Facebook compartilharam ontem um link da revista Época, matéria escrita pela jornalista Eliane Brum : Meu filho, você não merece nada. Ela afirma com muita propriedade que os jovens de hoje querem tudo de graça, detestam fazer esforço e não sabem lidar com a frustração apesar de serem bastante evoluídos em outras inteligências. Em resumo, ninguém se vira. Concordei com a jornalista e pensei nos apuros do menino Pi. Conclui que (1) preciso terminar logo esse livro, (2) preciso deixar de ser uma “mãe GPS”(isso quem inventou foi a Rosely Sayão), daquelas que dão todas as coordenadas de mão beijada pros filhos. OK, mensagem recebida e obrigada Eliane por oferecer outras pontes pra salvação dessa garotada além do naufrágio. Será que por coincidência li a matéria? Sem querer querendo escolhi esse livro?  Adoro quando a sincronicidade escancara sua existência.   (RL)

Perder para ganhar

Meu marido integra a comissão técnica da Seleção Brasileira de Vôlei. No último domingo disputaram a final da Liga Mundial, buscando o deca campeonato. E perderam. Desde então acompanho as diversas matérias sobre a derrota. Em um site faziam uma enquete sobre a maior decepção da semana. O vôlei figurava entre elas. Em outro um colunista afirma que o Brasil perdeu pela soberba da comissão técnica. Em outro que eles não estão acostumados a perder. Pois garanto que se tem uma coisa que eles fazem dia após dia, é perder. Meu marido perdeu o nascimento das filhas. Perdeu os primeiros passos, as primeiras palavras. Perdeu aniversários, formaturas, estreias. Há anos acompanha o crescimento das meninas pelo telefone. Suas conquistas por fotos, suas tristezas por relato. Há anos somos derrotados por um adversário que nunca esteve do outro lado da quadra. A ausência. O peito que muitas vezes carregou a medalha de ouro, carrega também a eterna saudade. Talvez por isso ele nunca tenha perdido a garra, a entrega, a vontade de fazer valer a pena. O esforço para a vitória é fruto de quem abdica diariamente daquilo que mais ama. Hoje ele chega com a medalha de prata. Para nós, sempre será ouro. (RM)

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