arquivo | agosto, 2011

Eu, enquanto torta

Na falta do que fazer e porque adoro um docinho pensei numa torta mil folhas pra ilustrar o que acontece com a gente ao longo dos anos. Nossas experiências se acumulam em camadas e, de folha em folha, a pilha vai aumentando. É inevitável que a parte de baixo comece a amarfanhar portanto as rugas são consequência naturalíssima do “peso” dessas páginas da vida. A vantagem é que quanto mais alta a torta, mais longe se vê. Os idosos podem ser meio encarquilhados mas lá de cima compreendem todas as dimensões da humanidade, serenamente. Já os adolescentes tem uma visão chapada da realidade porque estão numa fase cremosa e ainda baixa do seu doce. Ficam encalhados entre milhares de certezas absolutas. Minha torta é intermediária, tem 47 andares. A essa “altura” eu já deveria ter me conformado com a chegada dos fios brancos. Mas não, vivo reclamando. Me recuso a aceitar essa cobertura açucarada antes da hora. Pergunto por que por que por que?  A filha responde: mãe você tem cabelo branco porque você cresceu. Sabedoria da torta.

É nisso que dá passar o domingo em casa.  (RL)

Pessoas de bom senso: uma raça em extinção

Eu mesma se tivesse não escreveria sobre isso. Mas tenho presenciado cenas que fariam Jack Estripador corar. O amor, o ódio, o sucesso. Quantas vezes não nos dominaram? Quantas vezes não dilaceraram nossa razão em troca de uma análise mesquinha? A falta de bom senso nos torna pequenos. Ser dominado pela emoção faz parte da nossa natureza. Mas é preciso ter discernimento para avaliar onde começa nossa loucura. Na verdade, quando a loucura começa a fazer parte do senso comum é que fico horrorizada. Escrevo esse texto por essa razão. Não posso aqui esmiuçar a situação, ainda que vontade não  falte. E confesso que não o faço  pelo bom senso, mas pela certeza que em nada resultaria. Na verdade escrevo para fazer um apelo: se você conhece pessoas sensatas leva-as para um laboratório. Me parece crucial o estudo do DNA desses seres dotados. Tenho a impressão que, de extintos, eles logo logo se tornarão inexistentes! (RM)

Com quem será?

Só se fala nisso: no casamento da prima. Bastou ela aparecer com uma aliança brilhando no dedo pro diz que diz que começar. Onde, quando, como? A mãe quer uma cerimônia com jardim, a avó acha tudo um pouco precipitado, eu já ofereci meu apartamento pro jantar de noivado enquanto a ala das adolescentes quer mesmo é saber o tamanho da festa, pra então decidirem o comprimento dos vestidos. Frisson, rebuliço, frenesi. Daqui até o fim do ano é isso aí. Mas e o noivo? Não posso, não devo, não vou contar quem é. Me xinguem, me deletem, me matem mas não conto. Ai como é difícil ser discreto quando a noticia é picante. Mas acontece que se eu vazo a informação periga botarem olho gordo e aí nem pensar, não corro esse risco de jeito nenhum. Inveja é coisa séria. Acreditem, tem mulher fazendo qualquer negócio pra agarrar marido. Hoje minha filha contou que a professora contou que uma amiga dela(sei…)reservou uma data na Igreja Nossa Senhora do Brasil, pra daqui a 2 anos. Antes disso não tem vaga no altar. Com a benção garantida essa tal moça agora tem 24 meses pra correr atrás, fisgar e laçar… um moço pra chamar de seu. Eu hein, meu nome é silêncio!   (RL)

Além do arco-íris

Compramos nosso apartamento há exatos 6 meses aqui em São Paulo. Quando chegamos de Curitiba, locamos um imóvel para passar poucos meses. Mas fomos ficando. Os meses viraram 2 anos. Era hora de decidir se ficaríamos aqui ou não. Decidimos ficar e comprar um apartamento. Saí em busca de um imóvel. Visitava em média 6 por dia, muitos ainda com as pessoas morando. E, nesse caso, é impossível avaliar apenas o apartamento: avaliamos também o modo de vida das pessoas. Alguns eram impecavelmente decorados. Lindos, elegantes e… sem vida. Me sentia em uma loja de decoração. Outros largados, o chão manchado, a torneira torta. Um que me causou extrema perturbação: tinha tanta coisa entulhada que senti falta de ar. Não conseguia me ver morando em nenhum daqueles lugares. Voltava para casa todos os dias com enorme frustação. O tempo passando e a tarefa de procurar imóvel se tornando um fardo. De visita em visita, só pensava em voltar para minha casa. E voltando um dia descobri que não encontraria o que procurava em nenhum outro lugar. Não estava buscando um imóvel. Estava buscando um lar. E nenhum lar seria como o que já tinha. Há 6 meses compramos o mesmo apartamento que moramos nesses dois anos. Nem grande, nem pequeno. Nem luxo, nem lixo. Um lar. Nada além disso. (RM)

“Auto” lá!

Pra impor respeito nas ruas e forçar os bons modos, é ótima essa lei do pedestre. Só acho que ela beneficia muito mais quem dirige do que quem atravessa. A ameaça de multa e de pontos na carteira serve pra tirar a pessoa do “automático”, lugar  muito mais perigoso de se estar que na calçada. Eu, desatenta, desrespeito muito pedestre. Quando me toco já é tarde. Se for preciso pagar pra “acordar” com certeza ficaremos todos mais espertos. A questão é que não é só nas ruas que acontecem atropelamentos né? Estou pensando em aproveitar esse momento de comoção pra lançar  faixas de uso pessoal, tamanho bolsa. Se aparecer um inimigo querendo passar por cima de mim eu desenrolo a faixa na cara dele. Na horizontal, obriga o cara a parar, refletir, quem sabe desistir do ataque. Na vertical funciona como um cercadinho protetor . De quebra ainda ajuda a lembrar da campanha principal. O DSV ainda vai me agradecer por inventar esse brinde. Apesar que hoje em dia toda boa ideia tem dono e tem preço, deixo aqui, “na faixa”, minha singela contribuição pro bem estar da população. (RL)

Prefiro morrer

Parada no trânsito (e sem ter como fugir) assisti uma declaração de amor. Daquelas com o carro de som. Com o alto falante a toda, o texto  lido por uma mulher fantasiada contava todos os pormenores da relação entre o infeliz que escutava  e a contratante do serviço. Enquanto meus ouvidos resistiam a animada interpretação da mulher fantasiada, fiquei pensando sobre o amor. Não há nada melhor que se sentir amado. Mas será que precisamos de tanta parafernália pra demonstrarmos o quanto amamos? Minha vida sem você não tem sentido, só descobri a felicidade ao seu lado, prefiro morrer a te perder. Eu hein?! Que morra! Nunca gostei de superlativos. Acredito que o amor reside nos detalhes. Nas pequenas coisas do dia a dia: quando mandamos colocar um casaco, compramos a fruta preferida ou fazemos o chocolate quente. Quando trocamos o beijo de despedida por um abraço apertado. Quando levantamos às 3h da manhã pra buscar na festa. Quando encontramos um bilhetinho desejando boa sorte. Enfim, essas coisinhas que preenchem nossa vida. E nosso coração. Pensei em tudo isso e a mulher fantasiada continuava sua leitura. O infeliz que escutava continuava constrangido. Ficou ainda pior depois que lhe jogaram confete e tocaram cornetas. Talvez ele também não goste de superlativos. Nem de mulher fantasiada, confete e corneta. Talvez essa mulher, que prefere morrer a viver sem ele, não tenha prestado atenção nesse detalhe. (RM)

Madrugada afora

Programa de índio é ir pra cama à meia noite prevendo acordar as 3 pra buscar filha em festa. Acabo que nem durmo. Deito, levanto, nesse caso fui pegar morango na geladeira, li revista, bati um papinho online com a Rejane que também vagava as 2 e 15 até que finalmente chega a hora de encarar a madrugada de sábado. A cidade um deserto. Repito a tática um tanto ridícula de prender o cabelo num coquinho, pra não dar bandeira da minha condição mulher-sozinha-dirigindo-a-essa-hora. Alerta máximo. No farol verde reduzo a velocidade pensando em Porsches desembestadas. No vermelho paro, olho bem pros lados e sigo em frente. Nem hesito em preferir a multa. E dá-lhe asfalto. O raio da festa era na Rua Turiassu, bem longinho. 3 e 15 estaciono em frente ao clube Português, já avisei por sms há um quarteirão atrás. Ela entra no carro toda animada. Rindo, meio alta, chumbada eu diria. Fosse um motorista contratado eu nunca saberia. Ficaria na memória de um estranho a visão dessa menina linda, rindo só de feliz mesmo, altíssima em sua sandália nova, chumbada de puro sono.      (RL)

Não basta ser pai

Ontem foi o dia dos pais. Meu pai não mora em São Paulo e meu marido está viajando. Passamos um dia sem pai. Minha filha estreava ontem sem pai. Enquanto aguardávamos para vê-la na peça, minha filha menor e eu fomos dar uma volta no shopping. E encontramos um stand que promovia um brinquedo novo, bem divertido. As crianças podiam brincar, desde que estivessem acompanhadas dos pais. Entramos na fila. E quando chegou a nossa vez, fomos barradas. Apenas pai e filho. Mãe não pode. O stand fechava ontem. Pedi, sorri, argumentei. Sem sucesso. Sem pai, sem diversão. Hoje torço para que o brinquedo tenha o mesmo êxito que eu. Mas não vem ao caso. Na verdade fiquei a pensar nas amigas que conheço que são viúvas, mães solteiras, divorciadas. Nos amigos que assumiram enteados. Todos que, as vezes até de forma inesperada, se tornaram pais. Todos que cuidam, orientam, preocupam, ensinam, brigam, choram, desanimam, retomam, brincam, sorriem… amam. E que, ainda assim, seriam igualmente barrados. A todos eles, desejo um Feliz dos Pais. (RM)

Quase filho, quase pai

Falávamos sobre a origem do homem, sobre Deus e a criação do mundo quando ele, do alto de seus 9 ou 10 anos, lançou: “Rê mas você acredita mesmo nessa história de Romeu e Julieta?” Mais crescidinho um pouco encontrou a explicação clara e definitiva pra outra questão afetiva: “Meus pais se separaram porque ele gostava de moto e ela preferia quadros.” E por falar em moto esse menino vivia pedindo pro pai “contar um acidente”. “Pai, entra em ação!”, ele dizia. Adolescente, deu um jeito de sair de São Paulo e foi morar na fazenda, louco por  rodeio, música caipira e vitamina de abacate. Se chamava de pessoa simples. “Meu paladar é rústico, só reconheço 7 sabores”. E não é que de repente o rapaz começou a preferir frango sem osso? Estranhei mas enfim… Foi fazer MBA, voltou adulto pra caramba. Namorou, casou, mora num apartamento que é um brinco. Recentemente me ensinou o que é “deep washing”; descobri que o carro dele  toma esse tipo de banho uma vez por mês. Epa. A última vez que apareceu pra jantar com a gente, perguntou se a água era do filtro por que, na boa, dava pra perceber. Epa, epa, epa. Cadê aquele paladar básico? E o sistema bruto? Será que básica e caipira fiquei eu? (essa reflexão fica pra depois) O fato é que o garoto que um dia enfiou Shakespeare no jardim do Éden hoje não confunde mais nada e tem as rédeas de sua vida nas mãos. Sabe tudo. 23 anos depois ele é o peão mais incrementado que conheço.  Uma combinação que tem dado demais de certo. A última novidade é que ele “entrou em ação” e daqui a 6 meses vai ser pai. Tomara que seja uma menininha por que se não for…socorro, onde foi que eu guardei aquele terninho azul marinho?? Feliz primeiro Dia dos Pais Frê. Beijo da madrasta.   (RL)

Os valores de uma amizade

Começou como aquelas amizades improváveis. Ela foi babá durante toda sua vida. Cansou. Decidiu que não trabalharia mais nessa função. Que não teria filhos. Resolveu fazer aquilo que realmente gosta: cozinhar. Começou a trabalhar conosco, com a ressalva que não cuidaria de nenhuma das meninas. Exigência aceita. Entre uma refeição e outra, recebia na cozinha uma criança que adora cozinhar. Giulia. Tímida, levava seu livrinho e passava o tempo só a observar a Verinha montar os pratos. Com o tempo, começou a perguntar sobre um prato e outro. Escutava as instruções. A Verinha começou a perguntar sobre os seus livros. Passou a montar os pratos escutando as histórias de aventura que a Giulia lia. Riam. Se tornaram próximas. Durante esse mesmo processo, a Giulia começou uma nova amizade na escola. Devagar,  com o tempo dela. Faziam os mesmos esportes, estudavam na mesma sala. Se tornaram boas amigas. Foi convidada para passar a tarde na casa da amiga, brincando. Quando fui busca-la, nenhum sorriso. Os olhos baixos, a mão me segurando forte. Me contou, entre lágrimas, que amiga ‘não era delicada’ com os funcionários. Durante o trajeto escola-casa, gritou com o motorista. Jogou na babá o bolo que não gostava. Presenciou essas e outras brutalidades. Nesse dia, não leu. Não jantou. No dia seguinte, depois da escola, encontrou a Verinha na cozinha. ‘E daí Giugiu, como foi com a amiga?’. Não disse nada. Apenas se aproximou. Abraçou a Verinha. Sua amiga. (RM)

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