arquivo | setembro, 2011

Massa de modelar

Hoje decidi que se eu tivesse que escolher uma única pessoa pra micar comigo numa ilha deserta seria minha massagista. Na verdade teria um dilema pois são duas: a Socorro e a Aparecida. Só os nomes já curam. Uma me socorre e a outra aparece quando eu mais preciso. Adoro as duas. Aliás iria com qualquer uma delas pra o isolamento na ilha. Mesmo perdida no meio do nada eu poderia fechar os olhos e viajar pra mundos fora dali, só na base da massagem. Me perdoem. Não tenho nenhum vicio condenável. Só esse, que é do bem. Comprei maca, lençol elétrico e almofadinha para os olhos.  Antes da terapeuta chegar já começo a ficar feliz. Me entrego mesmo. Sou a própria massa de modelar. O único detalhe é que costumo marcar as 8 da manhã então o objetivo “zen” fica meio prejudicado.  Quero mais é que a massagem reduza, modele, dissolva, drene tudo e mais um pouco. Quero fazer xixi o dia inteiro. Essa parte do relaxamento fica pra quando eu chegar na ilha. (RL)

Marca do Zorro

Aos 23 anos recebi o diagnóstico: melanoma grau 4. Foi um forrobodó. No dia seguinte já estava na mesa de operações ouvindo o médico dizer que ia retirar a parte ruim e também um pedaço da parte boa, como garantia. Eu, pra ele, um filet mignon esticado na maca. Terminada a cirurgia restaram 33 pontos carimbados nas costas( a tal marca do Zorro), e um mal estar geral na família. Os meses seguintes foram  bem tensos e demorei pra realizar que tive MUITA sorte. Mesmo assim não consigo me encaixar no time dos sobreviventes. Sei lá. O mundo produz e consome tanta tragédia hoje em dia que a minha historia não dá ibope nem dentro de casa. Vejo minhas filhas abusando do sol, displicentes que só. Eu deveria estudar teatro. Quem sabe impostando a voz e jogando um holofote sobre a cicatriz, eu consiga fazer um drama convincente. A verdade é que a cura atrai menos plateia.    (RL)

Força estranha

Pra se sentir poderosa uma mulher tem, a seu dispor, os recursos acima. Isso tudo e mais uma passadinha no cabeleireiro é o suficiente pra dissolver a maioria das instabilidades emocionais. OK, futilidades. Mas a vida também  é assim e quer saber? Os homens adoram. Eu que nunca liguei pra joias confesso que ando estacionando em frente a vitrines, achando bonito, querendo pegar na mão. Tenho várias amigas que possuem, porque compraram ou ganharam, brincos, anéis, pulseiras e colares de todo tipo. Eu sou um pouco lerda, só isso. Recentemente tive duas festas importantes e acabei  descobrindo na gaveta uma pulseira maciçona, que pertenceu a uma tia da família. Ela, a pulseira, sorriu pra mim!  20 anos engavetada, a coitada. Acreditem, foi o tempo que eu demorei pra enxergá-la. Freud e Jung juntos devem  explicar tamanha cegueira. No entanto, prefiro pensar que tudo na vida tem sua hora. Meu encontro mágico com a pulseira só aconteceu agora porque até então eu não estava espiritualmente madura ou irracionalmente liberada (tanto faz!),…pra derretê-la!   (RL)

Verdades surreais

A primeira cena do filme “Um Conto Chinês” aconteceu de verdade: Um casal  passeia num barquinho quando – do nada – despenca do céu uma vaca. A vaca atinge o barco e a moça morre. Sobra o noivo que, desesperado(claquete), se manda pra Argentina e acaba se tornando uma pedra no sapato do personagem Roberto, vivido por Ricardo Darín.  Roberto é um sujeito meio azedo, que tem como hobby colecionar notícias esdrúxulas. Como essa, da vaca. Como essa outra, do engavetamento de 300 carros na Rodovia dos Imigrantes. Roberto se espantaria com tanta lata amassada. Aliás, se ele morasse no Brasil teria que inventar outra mania já que histórias inacreditáveis é o que mais temos por aqui. Uma querida amiga foi fazer um procedimento hospitalar dos mais simples: retirar uma pinta do rosto. No dia seguinte ela sentiu muita dor e o nariz inchou bastante. Pra encurtar uma história absurda, ela acabou descobrindo que houve um incêndio em suas narinas e que o médico tentou encobrir o “incidente”, inclusive pediu para o marido dela não comentar nada com ninguém. Se tivesse saído no jornal a manchete seria “Médico barbeiro ateia fogo em nariz de paciente anestesiada”. Mais uma pro álbum do argentino. E já que estou falando de surrealidades, bem que vaca podia ter poupado a chinesinha e acertado o médico.   (RL)

O melhor amigo do homem

Meu prédio permite animais, desde que os bichinhos usem o elevador de serviços e façam suas necessidades fora do condomínio. São apenas 8 apartamentos e a metade  tem cachorro. Os cachorros são educados, em alguns casos mais que os donos, e não incomodam. A novidade é que nosso zelador resolveu adotar um cão. Não é qualquer cão, é um bicho enorme. E estabanado: pula, late, corre atrás do próprio rabo, destrói as plantas, cava buracos… Tudo isso nas dependências do prédio. Minhas filhas menores morrem de medo: elas chegam, ele vem correndo, elas saem correndo, ele começa a latir, elas começam a gritar, um pandemônio. Até hoje ninguém reclamou, nosso zelador é um lord e acreditávamos que ele daria um jeito no bicho. Mas o cão é obstinado. Transformou o jardim da frente em um campo minado e o dos fundos em terra arrasada. O zelador, com sua resiliência, segue tentando acalmar o animal, gentilmente apelidado de Marley. Tínhamos esperança. Até que ontem, com aquele frio, escutamos um tchibum na piscina. Adivinha quem resolveu dar umas braçadas? (RM)

Tipo assim

Quer coisa mais desmedida que as juras de amizade entre adolescentes? É um amor tão exagerado, tão “tudo”, que não sei o que eles dizem quando o caso é um romance de verdade. Sobra alguma palavra? Acho que não porque “eu te amo” eles declaram, escrevem e digitam a cada 5 minutos. Conhece num dia, no outro já ama de paixão. Tem um garoto da faculdade da minha filha que resolveu mudar de curso depois de 3 meses.  A carta de despedida, que ele mandou pra classe toda, tinha umas 4 páginas, cheias da mesma ladainha: o amor total, inesquecível e incomparável, que ele sente por todos. Se espremer rolam lágrimas fofas. Outra coisa que me deixa cabrera é esse negócio de “pegar”. Pegação, pegar mulher, pegar homem, acho de um mau gosto!! Mas enfim, é o tal abismo entre gerações. Mas nem tudo são críticas. Tem um substantivo novo que eu adoro: o indispensável*. Não é lindo? Tem até mercado  negro de indispensável. Quando é meu marido que leva na festa, ele diz: filha, não esquece o praticável! Tipo assim, o convitinho!    (RL)

* indispensável = indispensável a apresentação deste. Em geral é uma pulseirinha. (Achei conveniente explicar)

A tragédia de todos nós

Karine, Rafael, Milena, Mariana, Larissa, Bianca, Luiza, Géssica, Samira, Ana Carolina. Tinham entre 12 e 14 anos e foram mortos, por um atirador, aqui no Brasil. O crime chocou o país pela forma, pela idade das vítimas, pelo local onde se encontravam. Sobreviveram outras Karines, Milenas, Marianas, Biancas, Larissas… Sobreviveram, mas estão morrendo dia após dia: não uma morte abrupta, inesperada, como no primeiro caso. Mas uma morte lenta, diária, negligenciada. Nem por isso menos violenta. A semelhança entre os dois casos é o local do crime: a escola. O assassino que invadiu o colégio no Rio matando doze crianças, escolheu suas vítimas. Já o sistema de ensino brasileiro é mais democrático, condena todo mundo. Uma recente pesquisa realizada em 250 escolas com crianças do 3° ano (8 anos), concluiu que 44% dos alunos não tem conhecimentos adequados para leitura, 46,6% para escrita e 57% para matemática. Outra pesquisa, de 2008, relata que 75% dos brasileiros são analfabetos funcionais: leem, escrevem, realizam cálculos simples, mas não conseguem interpretar um texto. Vale lembrar que esses índices contemplam escolas públicas e privadas. Vale lembrar que um país se constrói com educação, com homens e livros como diria Monteiro Lobato. Karine, Rafael, Milena, Mariana, Larissa, Bianca, Luiza, Géssica, Samira, Ana Carolina representam a maior tragédia no ambiente escolar do nosso país. E mesmo assim, eles continuam morrendo, diariamente, diante dos nossos olhos.  (RM)

Te perdoo?

Influenciada pelos 10 anos do 11 de setembro procurei no dicionário sinônimos e antônimos da palavra perdão. Descobri que é bem mais fácil praticar os antônimos: castigo, condenação, culpa, danação, punição. Difícil mesmo é acessar o perdão láááá dentro da gente até porque da boca pra fora não alivia. O perdão que vale é aquele que expele toda e qualquer resquício de condenação. Quase impossível uma vez que vivemos cercados de tanta maldade e injustiça. Domingo foi dia de lembrar e homenagear mas duvido que alguém tenha perdoado. Esse relevamento genuíno é privilégio raro entre os humanos. Não fui agraciada. Lido bem apenas com o perdão corriqueiro. Bom,  mas me contaram uma história que trata de outro sentimento nobre. Quando o tenor José Carreras teve leucemia, ficou sem recursos pra pagar o tratamento. Felizmente conseguiu patrocínio de uma Fundação e se curou. Anos depois ele soube quem comandou a ajuda: Plácido Domingo, que era o presidente “sombra” da tal Fundação. Bondade pura, sem interferência do ego.

Pra perdoar com o coração, absolver total e intensamente, desculpar sem ressalvas…é preciso ser assim, generosamente gigante.     (RL)

Pra relaxar, Mil Perdões, do Chico, que eu amo.

Segredos roubados

Invadiram os cofres particulares de um banco importante. O sistema de segurança foi desligado e os bandidos ficaram 10 (DEZ) horas arrombando as gavetinhas. Vai saber o que levaram e é justamente aí que mora o problema, no interior das tais gavetas. Cofre é um mico. O banco não sabe o que o cliente esconde, digo, guarda lá dentro. Zilhões de dólares, diamantes, barras de ouro…e agora? Eu jamais colocaria minhas coisas num cofre longe de mim. Claro que não possuo nada que mereça tanta tranca mas mesmo assim, cofre é coisa de cinema. Voltando ao roubo, o boletim dessa ocorrência com certeza está sob 7 chaves. É a palavra do cliente(que talvez não goste de dar declarações), contra a palavra do banco(que não faz ideia o que declarar), sendo que a verdade está nas mãos do ladrão que por sua vez se aproveita da declarada lerdeza da policia. Que encrenca. E não tem seguro. Numa reportagem sobre o assalto o repórter entrevistou um advogado “especialista”. Fisicamente o sujeito era uma mistura de Tim Maia com Agnaldo Timóteo. Parecia um cofrinho: um tipo meio suíno, louco pra papar as moedas que sobrarem dessa confusão. E por falar em reino animal, deve ter outra fera muitíssimo interessada no conteúdo das gavetas secretas : o leão do imposto de renda. (RL)

Os pés descalços

Dizem que agora é moda andar descalço na Alemanha. Segundo o criador do movimento, ‘os pés não foram feitos para acessórios. Os sapatos apertam e restringem seus movimentos.’ Fiquei horrorizada com a notícia, odeio pés. Qualquer pé. Acho feio, acho estranho, me incomoda. Quer me ver a beira de uma síncope? Coloca uma daquelas sandálias que metade dos dedos ficam escapando pelas tiras. Cru-zes! Pior que um pé sozinho é um pé que não cabe na sandália. A parte toda questão estética, e a higiene? Já pensou andar descalço no Brasil? Bituca, chicletes, caco de vidro, cocô de cachorro…  A questão é que não entendo essas modas. Sei que o momento e as reinvindicações eram outras, mas lembram quando queimavam o sutiã? Só Deus sabe o que seria de mim sem um sutiã! E sem sapato! Oh Deus, que seja apenas uma modinha de verão… (RM)

http://www1.folha.uol.com.br/saopaulo/966322-nova-moda-da-alemanha-e-andar-sem-sapatos.shtml

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