arquivo | outubro, 2011

Mistério profundo

Quando minha mãe morreu, senti um frio que calor algum aquecia. Quando nasceu minha filha, inundou-me um amor que pensei que não merecia. Tive medo da morte e também da vida. Pois tão difícil quanto aceitar a perda foi, depois,  me permitir a sorte. Fiz muitas perguntas e recebi bem poucas respostas. Mesmo assim, não pude, não posso e nem quero impedir que a vida continue acontecendo. Com suas festas e suas dores, segue em frente a linha do meu tempo. Hoje pink, amanhã punk. E eu lá controlo alguma coisa? O acaso me contamina a todo instante e não faço ideia o que me espera no tal do destino. Mas quero dar conta do recado já que a outra opção é ser vítima dele. Não dá pra ler o final da história antes da hora. A única certeza que tenho é que ainda vou sofrer e ainda serei muito feliz.  (RL)

Silêncio

 Ontem, ao ver a foto do Gaddafi, fiquei pensando na força da imagem. Mais do que achar desnecessário a primeira página sangrando, vi ali um ser humano e não um ditador. Se apenas tivesse lido a matéria acharia que, enfim, a justiça tinha sido feita. Mas a imagem humanizou o monstro. Pensando nisso, selecionei alguns cartoons premiados. Palavras nem sempre dizem tudo. (RM)

Um, dois e já!

Foi dada a largada, vai começar o espetáculo! Cordões de isolamento avisam que ele está alí atrás, sendo montado. Por enquanto ainda em segredo. Um mistério estratégico, antes do lançamento oficial. E então, de repente, a vida vai mudar de cor, as ruas ganharão luzinhas, personagens e guirlandas. Assim que outubro terminar a cidade inteira irá brilhar. Dourados e prateados ocuparão as vitrines. Embrulhos de todas as cores vão saltar das telas de alta definição. Senhores de barba branca terão seu passe valorizado. Tudo será sonho. Ou não. Pra mim, na vida real, é hora de começar o cronograma ao contrário. Lá vou eu repetir a mesma maratona que há anos venho cumprindo. Como farei o convite dessa vez? Quantos kilos deve ter o perú? Mesa fria ou quente? Amigo secreto? Ideias, ideias…meu reino por novas ideias! Estou me antecipando? Acho que não. Pra quem é convidado, moleza. Pra quem produz, o tempo é curto e as filas são longas. É hora de fazer download dos enfeites. Termino esse texto e vou direto consultar a lista do ano passado. Mas…socorro, não quero de jeito nenhum terminar esse texto! Quero é voltar no tempo, pendurar chocolatinhos na árvore, comer um por dia! Ai que saudade de ser criança esperando o Natal! (RL)

Vocação para ser feliz

Tenho reparado nessas pessoas que são felizes sem um motivo especial. Pessoas que estão sempre com o astral lá em cima. Riem de si mesmas, da vida, dos problemas. Não buscam a felicidade nos acontecimentos, nas pessoas, nas realizações pessoais. Não ficam a espera de um milagre. Não se martirizam diante de um problema, não inventam a teoria da conspiração, não fazem tempestade em copo d’água. Não são otimistas demais e tampouco pessimistas. Aceitam as adversidades da mesma forma que aceitam as alegrias da vida. Vivem cada situação com a dose de intensidade necessária. Se posicionam diante dos acontecimentos, ainda que isso lhe custe uma dor de cabeça. Enfrentam, resolvem, vivem. E ainda que o saldo não seja positivo, são felizes. Afinal, a felicidade depende da maneira como enxergamos a vida. Ela está logo ali. Basta olharmos para ela. (RM)

Reza braba

Eu sei eu sei que esse assunto é chato mas agora resolvi inovar e serei breve: ao invés de procurar empregada quero uma benzedeira. Alguém que acenda velas perfumadas, que enxote os maus espíritos e que atraia para o meu lar uma ajudante bem boazinha, com um tempero bem gostoso, caprichosa, honesta e sorridente. Em troca, modestamente, ofereço uma família bacaninha para convívio, ambiente de trabalho inspirador (fartura de receitas), segurança (muitas grades e um zelador incansável), além de plano de carreira(cursos e workshops), e oportunidades de ganho extra(eventos e festinhas). Não temos cachorro nem papagaio.No aguardo de indicações de uma mãe de santo capaz de cumprir esse meu singelo despacho. Enquanto isso fico por aqui, vibrando positivamente e engordando o caixa do restaurante da esquina. Ooooooommmmmmmmmmmmm. Obrigada.  (RL)

eBay sentimental

Sempre achei que nos tornamos velhos quando ficamos datados. Quando nossas referências são de décadas passadas: o corte de cabelo, as roupas, os ídolos, o vocabulário… Enfim velho, na minha concepção, é quem não acompanha as mudanças do mundo. Pois bem, ontem conversando com uma amiga ela me garantiu que o romantismo acabou. As coisas já vinham difíceis, mas depois da internet, do sms e do ‘ficar’ o romantismo se tornou insustentável. Hoje não há necessidade de conquistar. Você conhece, gosta, pede para ficar, fica e reinicia o processo. A negociação do ficar em geral acontece por sms ou redes de relacionamento. Nada de olho no olho. Nada de encontros em vão. Tudo é acertado previamente. Em um mundo dinâmico, onde não se pode perder tempo, as relações precisam ser superficiais. Já pensou receber um sms pedindo para ficar? Fiquei horrorizada. Sou do tempo da troca de olhares, de homens que abrem porta, que levam para jantar, que pagam a conta, mandam flores… No meu tempo, sem celular, sem internet, contávamos com esses recursos ‘bizarros’ para conquistar. O passo adiante era uma consequência. Hoje essa geração não conquista, faz um acordo. Combina com antecedência se vai ou não rolar.  Sei lá, minhas referências são ultrapassadas. Sou datada. Velha, segundo minha própria teoria, ainda que as lembranças permaneçam vívidas e intocadas. Ou talvez eu não seja velha, apenas saudosista. Talvez o corte de cabelo, as roupas, os ídolos, o vocabulário, façam parte de um tempo que, para mim,  não deveria ter acabado. Velha, talvez. Romântica, sempre.  (RM)

Papelão

Ridículo a Globo não valorizar os atletas Brasileiros no Pan, não noticiar, simplesmente ignorar. O acidente com as meninas do vôlei feminino, os incriveis recordes da natação, a ginástica rítmica. Tudo isso acontecendo e a Globo sonegando, só negando, pisando feio na bola. Se pensassem menos em grana, se fossem menos vaidosos, poderiam generosamente engrossar a torcida Brasileira. Não transmitir é uma coisa mas informar é um dever jornalístico. Eu quero mais é que a Record dê um show. Tomara mesmo. É por essas e outras que respeito os recentes protestos mundiais, contra a ganância do capitalismo. Sei que estou julgando sem conhecimento completo de causa mas não me conformo. Nossos atletas merecem audiência e sabemos que a Globo monopoliza e mobiliza, quando interessa. A gente se vê na Record! (RL)

Primeiros socorros

Outro dia o Jorge* misturou vinho com remédio forte e depois da terceira ou quarta taça precisou sentar. Era um almoço, cheio de amigos e parentes.Quando perceberam que o cara tava pálidão, todo mundo virou médico. Traz açúcar! Traz gelo! Levanta a perna dele! Dá Coca-Cola! Põe um pano molhado na nuca! Só depois dessa chuva de providências “técnicas” é que se lembraram de chamar um médico de verdade. Chegou o doutor com sua maleta, de onde não saiu nem açúcar, nem Coca, nem gelo, nem paninho. Os amigos-socorristas não se intimidaram. Foram em comboio pro ambulatório: paciente, médico e convidados. Esses últimos ainda cheios de opinião pra dar. Descartaram enfarte, hipoglicemia, AVC. Foi só uma queda de pressão mesmo,  concluiu o único ali que podia concluir alguma coisa. Eu sabia, falou o Dr. engenheiro. Eu tinha certeza, emendou o Dr. empresário. Voltaram todos pro almoço, inclusive o médico que aproveitou a moda de virar alguma coisa pra virar convidado. Aliviados e famintos, mergulharam todos: primeiro na muqueca de peixe depois nos ovos moles!  (RL)

* nome fictício pra preservar o ibope do parente.

Jogo do contente

Sobrevoando o Atlântico, na penumbra da poltrona 38J, pensei, ou melhor senti: como é bom achar tudo bom. De um jeito ou de outro. Na econômica ou na executiva, viajar é ótimo e voltar pra casa também. O segredo é mapear a situação com antecedência e depois remar a seu próprio favor. Na classe turista isso significa ter na bolsa sua escova de dentes, seu tapa olhos e seu Stilnox. Com o espirito e o corpo devidamente anestesiados fica bem mais fácil conviver com o espaço rarefeito. Salve o livre arbítrio e viva a farmácia! Pois, ou tomo o remedinho e durmo, ou não tomo e mordo a aeromoça num ataque de fúria. Ou entrego de mão beijada minhas economias só pra esticar as pernas e reclinar a poltrona, ou compro uma caixinha do santo sonífero e com o troco  trago de Paris uma bolsa incrível. Com a idade, tudo fica mais simples e fácil de resolver. Cecilia Meireles, que sabia dessas coisas da vida, transformou o dilema em poema.  (RL)

   Ou isto ou aquilo – Cecilia Meireles

 Ou se tem chuva e não se tem sol

ou se tem sol e não se tem chuva!

 Ou se calça a luva e não se põe o anel,

ou se põe o anel e não se calça a luva!

 Quem sobe nos ares não fica no chão,

quem fica no chão não sobe nos ares.

 É uma grande pena que não se possa estar

ao mesmo tempo nos dois lugares!

 Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,

ou compro o doce e gasto o dinheiro.

 Ou isto ou aquilo, ou isto ou aquilo…

e vivo escolhendo o dia inteiro!

 Não sei se brinco, não sei se estudo,

se saio correndo ou fico tranquilo.

 Mas não consegui entender ainda

  qual é melhor: se é isto ou aquilo.

Aprender a ler

Esses dias participei de uma palestra para aprender a ler. Na verdade, para aprender a ler melhor, a partir de uma técnica desenvolvida em Harvard. Durante as 3h de explanação, fomos bombardeados com diversos tipos de textos e estruturas. O palestrante então ressaltava quais eram os elementos principais daqueles textos e porque são considerados brilhantes. Tudo corria muito bem, estava empolgadíssima fazendo minhas anotações. Lá pelas tantas o exemplo utilizado era um poema de 3 linhas. Tínhamos que garimpar ‘o’ ou ‘os’ elementos desse poema. Num esforço descomunal do meu intelecto, consegui encontrar dois elementos. E aí começou o imbróglio. Parte dos demais participantes enxergou no poema muito mais do que estava ali. Foram ganhando adeptos e contornando uma interpretação que a mim só poderia ser fruto de duas alternativas: ou eu sou uma anta, ou o povo gosta de inventar em cima do nada. Preferi a segunda opção. Preferi não apenas pela questão do poema, mas pelas situações que encontro na vida. Por que as pessoas criam interpretações torpes diante daquilo que não entendem? Talvez seja impossível ler uma obra, um conto, um poema, um fato, sem projetar nele nossas experiências. Interpretamos. Com ou sem elementos, mas com certeza de que a nossa leitura é a correta. Mesmo sem ter entendido nada. (RM) 

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