arquivo | novembro, 2011

Projeto de vida

Tenho impressão que algumas mulheres não casam, abraçam uma causa. A relação para elas consiste na distância entre o que o marido é e o que deveria ser. E essa distância, na maioria das vezes, é enorme. Bater papo com essas esposas é como participar de uma reunião de fechamento de metas: ficamos sabendo em detalhes os objetivos alcançados, o que está em andamento e o que beira o impossível. Os momentos mais comoventes são os relatos sobre os maridos que não estão dispostos a uma melhoria: anos de esforço e dedicação sem qualquer mudança. Uma tristeza. Ao sair desses encontros me pergunto se elas casam com um homem ou com as próprias expectativas. Até hoje não sei se é ingenuidade ou petulância acreditar que se pode mudar alguém, afinal não se transforma um avarento em perdulário e tampouco um galinha em casto. Enfim, mais do que entender essas mulheres, tento achar uma justificativa plausível para os homens se submeterem a isso. Difícil entender. Me rendo aos ensinamentos da minha vó que, ao escutar uma história como essa, certamente diria Ah minha filha, toda panela tem sua tampa. Só pode ser! (RM)

Meu coração, não sei por que…

Nosso apê tem as paredes peladas desde que nos mudamos, há 1 ano e meio. Não entendo nada de arte. Sempre achei que um dia toparia com algo que me comovesse, sem que eu precisasse ir atrás. Até porque nem saberia por onde começar. Pois bem, o dia foi ontem. Parece piada. Fui meio por acaso, a uma exposição que reúne trabalhos de artistas de diferentes galerias. Eu realmente não sei escolher. Não confio nada no meu senso estético, fico indecisa, já vi esse filme várias vezes. Mesmo assim, encarei. Sozinha, dei uma volta inteira no galpão. Parei em frente a um par de gravuras. Estavam vendidas. O galerista se aproximou e eu disse, sem pensar: eu quero. Ele tinha outras, ainda mais lindas. Comprei em 5 minutos. De onde veio essa confiança toda não tenho ideia. Só sei que meu coração bateu feliz. Descobri que é inconfundível e deliciosa a sensação de encontrar.   (RL)

Harakiri

O carro estacionado na vaga de idosos me causou espanto, por isso achei melhor alertá-la. Se o carro no lugar errado já havia me assustado, o argumento que escutei foi de arrepiar: isso aqui é um shopping, o que eles podem fazer? Me multar?! E o carro continuou lá. Além de não ligar pro certo e errado, o povo perdeu a vergonha? Os japoneses cometem suicídio para manter a honra e não envergonhar a família. Não quero que ninguém morra por honra ou vergonha, afinal faltariam funerárias e perderíamos muitos amigos, mas um exame de consciência, as vezes, vale a pena. Vale inclusive fazer esse exame com certa freqüência, do contrário podemos ser acometidos por uma amnésia, como no caso do ministro e a ONG, a viagem, o avião… Enfim, é fácil esquecer os erros em uma sociedade que não se envergonha, onde ética é premissa de otários. Experimente comentar em uma roda de amigos que você não permite dvds pirata na sua casa, que seu filho não pode usar RG falso, que seus impostos são pagos em dia, que você não dá um jeitinho… Coisa de otário. Nossa sociedade prima pelos espertalhões, pelos que se safam, os que se dão bem. Por mais incrível que pareça, não ficamos indignados com casos de suborno, desvios, corrupção. Nos causa espanto a atitude do tenente que não aceitou a proposta milionária do traficante Nem. A recusa, de tão absurda, virou notícia. Para alguns um herói, para outros um otário. Não deveria ser nem um, nem outro. Mas em um país de sem-vergonhas, os éticos são notícia. (RM)

Descanso em paz

Feriado de 4 dias. Entre outras coisas, foi bom pra jogar conversa fora. Mas a história abaixo eu achei que valia a pena não jogar.

A funcionária do lar chega no trabalho toda animada(ou talvez a melhor palavra seja aliviada), anunciando que já está com seu funeral garantido. Comprou a cerimônia, o caixão, agora só falta o túmulo. Anunciou também uma incumbência para a patroa: caso ela(a funcionária) parta dessa pra melhor sem avisar, o recibo da compra está guardado na bolsa tal, gaveta tal. Que tal? Indigente, jamais!

Fiquei passada. A dita cuja tem 50 anos e é saudável. Não bastasse o dinheiro contado -‘enquanto viva’-, ainda tem essa preocupação que, pior de tudo, faz sentido. Se eu morro amanhã, minha família tem condições de arcar com os trâmites. E sei quanto custa. O caixão mais em conta, sai caro. Se uma pessoa pobre morre, é um sufoco. Quer dizer, sem planejamento e sem orçamento, não dá pra morrer com tranquilidade. Quando minha amiga contou essa cena, dei risada. Mas agora vejo que não é nada engraçado.  O mais incrível é que a moça estava bem feliz por ter conseguido comprar seu ritual de despedida. Pois é.  A vida só é dura para quem é mole.

Essa música é em homenagem a ela, que se chama Nice. (RL)

Lapinha

Vai Murphy, me deixa!

Ao contrário do discurso que adotei durante toda uma vida, começo a gostar da rotina. Esses episódios pitorescos que insistem sacudir nossa vidinha no dia a dia, cansam. Esse feriado por exemplo: tinha tudo para ser perfeito, não fossem os acontecimentos extras. Tudo começou na sexta-feira: deixei meu carro em um estacionamento na rua. Voltei para buscá-lo e tudo parecia normal. Porém, todos buzinavam para mim, buzinas e mais buzinas. Mesmo parada em um engarrafamento, continuavam buzinando. Me ocorreu que alguma coisa poderia estar pendurada para fora, sei lá. Resolvi dar uma geral no carro. Foi quando descobri que alguma mente doentia desenhou não apenas um, mas vários (não sei como dizer isso…) órgãos sexuais masculinos no meu vidro traseiro, com a sugestiva frase Buzine se tiver um. Lá estava eu desfilando por São Paulo com aquela indecência, quando para um motoqueiro e grita: aí tia!! Tia?!? Não sei o que abalou mais a minha reputação naquele momento, a indecência ou o tratamento dispensado. Percebendo meu constrangimento, São Pedro fez desabar uma tempestade. Tudo limpo, meu vidro e minha dignidade, sigo meu caminho com a certeza de que já era o suficiente para o fim de semana. Ledo engano. Aniversário de 18 anos da minha filha, encomendamos algumas comidinhas para serem entregues as 18h. Passa o horário e nada da encomenda. Adivinhe: a confeitaria errou o pedido, o horário, o endereço e tcharam, ficamos sem comida!!! Nós e os convidados. E para terminar o feriado com chave de ouro, meu computador parou de funcionar. Não dá sinal de vida, o miserável. Agora, cá entre nós, mesmo com esses contratempos daria um dedo para que o feriado durasse mais uns dias. Hoje a vida voltou ao normal e cá estou eu, as 6h25 da manhã estacionada em um congestionamento. E aí meu bem, não há São Pedro, pizza ou assistência técnica que resolva!  (RM)

Mazelas

Fora a genética, contribuem para meus cabelos brancos as pequenas tragédias do cotidiano. Isoladamente, são fatos contornáveis. Mas parece que um azar, quando acontece, puxa o outro e aí a coisa pega. Lembrei de 4 situações difíceis, e seus prolongamentos.

  • Carrinho de supermercado quando enrosca no da frente. Justo aquele, que eu quero porque tem o espaço pra colocar a bolsa, está bem no meio da fila, todo preso. Quando finalmente alcanço, o maldito é daqueles que tem rodas com vida própria.
  • Durex com a ponta perdida. Dependendo do grau de irritação – comigo é batata – na hora de rasgar o pedacinho ainda vai embolar tudo.
  • Roupa que não secou direito e foi pro armário. Você reclama e a empregada fica de cara feia. Passa perfume e fica pior.
  • Abrir a porta do carro, fechar o guarda chuva, entrar no carro. Não dá pra entrar sem se molhar. E o guarda chuva ainda ensopa o banco e a bolsa.
  • Fim de feriado. Acabou-se o que era doce. Nesse momento especifico, o que vem na sequência é a lista de providências e presentes de Natal.  Oh céus!

Esse meu otimismo todo tem explicação: Chove muuuito e estou há 10 dias fazendo regime. Oh vida! (RL)

Afe Maria!

Falar ou escrever sobre religião não é o meu forte. Sou católica porque meus pais escolheram e nunca me ocorreu questionar. Pratico sim a religiosidade só que bem mais no dia a dia que na igreja. Também acho cômodo esse discurso de “rezo do meu jeito e para o meu Deus” mas enfim, se é para tocar no assunto é melhor confessar logo que sou desse tipo. Com minhas filhas repeti o modelo que recebi. Assim como eu, quando eram pequenas elas estudaram numa escola Cristã, onde tiveram aulas de religião. Minha intenção: proporcionar uma convivência mais intensa com os valores básicos de amor ao próximo, honestidade e humildade. O ritual de pregações, confissões e penitências eu não incentivei.  Claro que aprenderam histórias da Bíblia, fizeram a primeira comunhão, mas jamais cobrei delas uma participação ativa na igreja. São livres para serem Budistas caso prefiram. O importante é a base, como já disse. Mas tudo isso para contar que, quando estivemos em Paris, em outubro, pude comprovar que as escolhas que fazemos, em geral tem seu preço. Sentada ao lado da minha descendente, no banco da maravilhosa Sainte Chapelle, contei que essa igreja foi construída para abrigar a coroa de Cristo, em 1248. Uma cena bonita, com violinos ao fundo.

-Mas mãe, Cristo foi crucificado aqui na França?

(violinos)

É nisso que dá deixar os filhos livres para escolherem sua própria crença. (RL)

Saudade da calma

Tenho saudade de um tempo onde tínhamos um caminho a seguir. Estudo, faculdade, família feliz e the end. Acredite, falar inglês era um diferencial. Estudar fora era um sonho. O conhecimento era para poucos e as informações vinham em doses homeopáticas. Hoje os caminhos são muitos. A língua inglesa é de domínio público, as informações são disponibilizadas simultaneamente aos acontecimentos, as universidades proliferam e estudar fora é apenas mais uma opção. A distância entre nós, o conhecimento e o resto do planeta, não existe mais. Adaptar-se a uma realidade onde as opções se multiplicam gera uma sensação de instabilidade e insatisfação. Na ânsia de aproveitar tudo o que mundo oferece, corre-se contra o tempo. E o resultado é que as pessoas correm em busca de algo que ainda não se sabe o que é. Não sabem para onde vão e muito menos, onde querem chegar. O mundo se tornou histérico.  Ao menos para mim. Não acompanho essa dinâmica, me sinto lenta em um mundo que não para. Ainda gosto de fazer as coisas com calma e tranquilidade. Pura ilusão, talvez. Mas entre todas as opções que vida me oferece atualmente, a calma e a tranquilidade me parecem o melhor caminho a seguir. (RM)

Loucura pouca é bobagem

Fui assistir A Pele que Habito, do Almodóvar. Uma história absurda que na tela vai se tornando real, de tão ‘bem levada’. Adorei o timing do filme, a maneira como o tempo transita pelo corpo dos personagens. Loucura, obsessão, piração é o que não falta. Acho que por conta do plano maquiavélico que rola do começo ao fim da trama, me lembrei de fatos que mais parecem cinema mas que arderam na minha pele, há muitos anos. A protagonista chamava-se Aninha e o cenário era a fazenda dos meus avós, em Itú. Essa mulher aprontava as maiores barbaridades, depois acusava os netos. Uma vez picou todo o tricô da minha avó. Outra vez atirou na piscina o relógio do meu avô. Depois espalhou papel higiênico pela casa toda. Sempre com cara de exemplar. A coisa chegou a um ponto que deixamos de ir pra lá. Quando finalmente a doida foi desmascarada e demitida, ainda inventou uma falsa gravidez. Maluca mesmo a Aninha, daquelas que planeja minuciosamente suas maldades. Éramos crianças e felizmente pudemos retomar a vida saudável que todo neto merece ter ao lado dos avós. Nunca mais soube da infeliz. Afe, tirei do baú essa lembrança. Culpa do Almodóvar, outro trelélé só que diferente. Ele faz com a loucura, filmes que ganham prêmios.      (RL)

Ah, essa gente diferenciada…

Tudo começou com a tal gente diferenciada. A declaração foi parar no jornal e virou escândalo. Como nada é tão ruim que não possa piorar, Danilo Gentili resolveu dar um pitaco e, sem pestanejar, juntou a gente diferenciada, os judeus, os vagões e fez piada sobre o holocausto.  Lars Von Trier seguiu a mesma linha, declarou sua simpatia por Hitler e acabou banido do festival de Cannes. Outro que acabou banido foi Rafinha Bastos, depois da piada sobre a Wanessa Camargo e seu filho. Como resultado, tivemos o churrasco da gente diferenciada, a retratação do Danilo, o solene pedido de desculpas do Lars Von Trier e Rafinha Bastos reiterando que é um infame, ironizando seu comentário em um vídeo. Pensando nisso tudo a questão que me vem é: a humanidade é má, inconsequente ou apenas se transformou em uma massa de caracteres vazios? Será que essas pessoas realmente sabem o que dizem? As palavras servem apenas para formar frases de efeito, para gerar repercussão, sem que necessariamente o que foi dito tenha algum valor? Para refletir, segue no vídeo abaixo uma última declaração desastrada. Caso o mundo não acabe hoje e você queira protestar contra a comerciante de Moema, pegue sua bicicleta e junte-se aos ciclistas que andarão de salto pela ciclofaixa do bairro nesse fim de semana. O movimento chama-se ‘Milionárias de Bike’. Diferenciados sim, mas no salto! (RM)

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