Contraste

Eu devia ter uns 8 ou 9 anos. Minha mãe foi buscar minha irmã no inglês e fiquei sozinha com a empregada em casa. A campainha tocou e era uma moça bonita, dizendo que era uma prima de Santa Catarina. Íamos para lá de vez quando e eram tantas primas que não lembrava de todas direito. Lembro apenas que, quando íamos para lá, minha mãe sempre dizia: sejam gentis e educadas. Resolvi ser gentil e educada e convidei a moça para entrar. Ela estava surpresa que minha mãe não estivesse em casa, pois havia combinado com ela que viria pegar umas roupas emprestadas para uma viagem. E estava com pressa, portanto, ficou muito chateada. Achei que devia ajudá-la e fui com ela até o quarto da minha mãe: abri os armários e mostrei inclusive onde ficavam as malas onde ela poderia levar as roupas. Teresa, nossa empregada, não parecia gostar da nossa prima e achei melhor pedir que ela fosse preparar um suco. Fui atender o telefone e quando desliguei a prima já havia escolhido o que levar. As malas já estavam fechadas e como estava com pressa, agradeceu, se despediu e foi embora. Teresa voltou com o suco no mesmo instante que minha mãe chegou. Descobri que a moça bonita não tinha combinado em vir buscar roupa nenhuma. Descobri que ela não era nossa prima. E ao subirmos para o quarto, descobrimos que ela levou quase todas as roupas da minha mãe. Chamamos a polícia, alertamos os vizinhos. Ao mesmo tempo que me senti responsável pelo roubo, me senti impotente. Até então não havia passado por tragédia maior e lembro até hoje a dor que senti ao conhecer a maldade. E o maior contraste foi perceber que, apesar de estar devastada o mundo continuava seu curso, indiferente ao meu acontecimento. Até hoje quando alguém me conta uma verdadeira tragédia pessoal, é dessa história que me lembro. E relembro como dói a maldade. E a indiferença. (RM)

*Ainda que tenha deixado minha mãe quase sem nenhuma peça de roupa, ela nunca brigou ou me resposabilizou. Apenas alertou a mim e aos meus irmãos sobre segurança.

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Autor:reparei

"Se podes olhar, vê. Se podes Ver, repara." (José Saramago)

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4 Comentários em “Contraste”

  1. Sarah
    16/12/2011 às 21:01 #

    Voce tem toda a razão. A indiferenca è de morrer. Achei o seu conto ” arrepiante”
    E ainda bem que acabou assim…

    • 20/12/2011 às 21:01 #

      Também acho a indiferença pior. E sim, considerando, foi muita sorte! Bjs

  2. Cris
    16/12/2011 às 21:01 #

    Sua mãe agiu como poucas pessoas agiriam!

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