arquivo | dezembro, 2011

Sua linda

Se você fosse um hambúrguer ia se chamar x-princesa… O cara saiu com essa para a mocinha que entrega panfletos. Que a vida me poupe de presenciar situação semelhante novamente. Mas fiquei pensando nessa cultura onde os homens se sentem a vontade para soltar essas e outras barbaridades. Essa menina que entrega panfletos não deve ter mais que 15 anos e provavelmente suporta essas aberrações diariamente. O conquistador que soltou a pérola ainda falou mais uma ou duas gracinhas e saiu acelerando feito um condenado, para continuar seduzindo na próxima esquina. Não há nada melhor que receber um elogio e ser admirada. Não há nada pior que receber uma cantada e ser exposta ao ridículo. E na enorme distância que separa uma coisa da outra, está a diferença entre se sentir uma princesa ou uma  x-princesa. (RM)

Vale tudo

A Globo precisa urgente submeter sua programação ao divã do analista. De manhã leio no jornal que estão apostando no público evangélico. A noite, tem bacanal na novela. Fora a UFC, mas sobre isso já falei em outro post. Os capítulos de Fina Estampa,  semana passada, devem ter sido os mais baratos da história das telenovelas. Nada de cenário, tomadas externas, só cama, cama, cama. Se eu acho over imagina a minha avó. Ela assiste, e não perdoa. Diz que o Zé Mayer está horroroso e maltrapilho, naquela agarração com a Torloni. Julia Lemmertz, segunda ela, é a gravidona que agora se enganchou com o moço do empório. E o bocó do dono do restaurante não combina nada com a ex-encanadora. Sobre a Renata Sorrah melhor nem repetir. O único que sobrevive aos disparos é Marcelo Serrado. “Esse rapaz leva muito bem o papel de afeminado”. Vovó moderninha! Pensando bem, mesmo com seus 95 anos, se fosse o caso de escolher entre cânticos evangélicos e a novela devassa, ela ficaria com a segunda opção. Assim como na vida real, falar mal é uma distração “melhor” do que elogiar. E vamos combinar que a vovó pode. Ela resmunga, reclama, diz que vai fechar a TV, mas não perde uma cena.  (RL)

No minuto seguinte

Abri o facebook e entre 1.000.000 de compartilhamentos da enfermeira assassina de yorkshire, descobri que Sérgio Britto havia morrido. E fiquei triste. Fiquei triste não sei bem porque e não foi uma tristeza avassaladora, foi uma tristeza complacente. E depois descobri que Joãosinho Trinta também morreu. E imaginei que Joãosinho deve ter armado o maior carnaval por não ter morrido em um dia só dele. E então eu ri. E não fiquei tão triste.

Esperava meu marido voltar. A espera me incomoda. Liguei a tv e passava um filme que amo. Amei esperar.

Minha filha cantava no chuveiro 1h30 da manhã. Fiquei brava, mandei ela parar. O vizinho começou a gritar Santos, Santos. Mandei ela continuar. (RM)

Reparei…

… que quando se decora o Natal com elegância, criatividade e uma pitada de tradição local,  o resultado é emocionante.

Natal em Florença, Italia, que este ano presta homenagem às oliveiras. Colaboração da minha querida amiga Sarah.  (RL)

Andar com fé eu vou

Mulher quando quer acreditar em alguma coisa, ninguém segura. Por amor fazemos qualquer negócio. Pra emagrecer também. Tem a cartomante da vez, o acelerador de metabolismo da moda, numerologia, ginástica passiva… um cardápio enorme de milagres nos quais confiamos fervorosamente, conforme a necessidade. Da executiva à dona de casa, da artista descolada à cientista, toda mulher, em algum momento, acredita. Tem horas que a solução mágica é o creme antirrugas. No potinho depositamos não só uma grana preta mas também um oceano de fé. Em outros momentos, digamos assim mais “rústicos”, faz bem acreditar que a vida se divide em antes e depois do curso de pompoarismo.  Ser mulher não é só isso. Nossa vida inteligente é apenas mais instável – e cara – que a dos homens. Bom seria conseguir manejar todos esses rompantes , com cara de quem está pensando na lista do supermercado ou na reunião do dia seguinte. Sabe aquele semblante morte da bezerra? Por trás dele escorre, secretamente, um fio de esperança, de  paixão ou de sangue. Tudo depende. Tudo é possível. (RL)

Contraste

Eu devia ter uns 8 ou 9 anos. Minha mãe foi buscar minha irmã no inglês e fiquei sozinha com a empregada em casa. A campainha tocou e era uma moça bonita, dizendo que era uma prima de Santa Catarina. Íamos para lá de vez quando e eram tantas primas que não lembrava de todas direito. Lembro apenas que, quando íamos para lá, minha mãe sempre dizia: sejam gentis e educadas. Resolvi ser gentil e educada e convidei a moça para entrar. Ela estava surpresa que minha mãe não estivesse em casa, pois havia combinado com ela que viria pegar umas roupas emprestadas para uma viagem. E estava com pressa, portanto, ficou muito chateada. Achei que devia ajudá-la e fui com ela até o quarto da minha mãe: abri os armários e mostrei inclusive onde ficavam as malas onde ela poderia levar as roupas. Teresa, nossa empregada, não parecia gostar da nossa prima e achei melhor pedir que ela fosse preparar um suco. Fui atender o telefone e quando desliguei a prima já havia escolhido o que levar. As malas já estavam fechadas e como estava com pressa, agradeceu, se despediu e foi embora. Teresa voltou com o suco no mesmo instante que minha mãe chegou. Descobri que a moça bonita não tinha combinado em vir buscar roupa nenhuma. Descobri que ela não era nossa prima. E ao subirmos para o quarto, descobrimos que ela levou quase todas as roupas da minha mãe. Chamamos a polícia, alertamos os vizinhos. Ao mesmo tempo que me senti responsável pelo roubo, me senti impotente. Até então não havia passado por tragédia maior e lembro até hoje a dor que senti ao conhecer a maldade. E o maior contraste foi perceber que, apesar de estar devastada o mundo continuava seu curso, indiferente ao meu acontecimento. Até hoje quando alguém me conta uma verdadeira tragédia pessoal, é dessa história que me lembro. E relembro como dói a maldade. E a indiferença. (RM)

*Ainda que tenha deixado minha mãe quase sem nenhuma peça de roupa, ela nunca brigou ou me resposabilizou. Apenas alertou a mim e aos meus irmãos sobre segurança.

As Canções

Esse filme é para quem se emociona com música. No caso, a Brasileira. É sobre o desejo sincero de contar e de cantar. E é só isso. Um documentário simples, uma colagem de depoimentos bem afinados mas sem produção especial. Basta cadeira, corredor e cortina. Uma câmera, luz e dois microfones. Nada mais se faz necessário. A história de várias histórias se desenrola na tela; meio falada, meio cantada, sem nenhum ensaio. Também não há orquestra nem playback. Somente vozes, e a imensa verdade que elas trazem. Não pode ser mais real. Não pode ser mais encantado. Obrigada Eduardo Coutinho, por mais essa ideia genial.   (RL)

trailer As Canções

Psicopata do supermercado

Ela me encontrou no corredor dos produtos de limpeza. Tinha os olhos da loucura e passou a me seguir sorrateiramente pelo mercado.  Sabia que a conhecia, mas não lembrava de onde. Continuei fazendo as compras e ela atrás. De repente não a vi mais. Fui para o caixa e quando estava tirando os produtos do carrinho, ela parou ao meu lado.

– Oi.

– Oi…

– Lembra de mim?

– …

– Por que você não comprou meu apartamento?

(tudo voltou na minha mente. Parecia flashback de novela. Durante o período que procurava apartamento para comprar, visitei o dela. E agora iria responder o quê? O apartamento era uma bagunça, um milhão de coisas entulhadas, com várias coisas por fazer, cheirando mofo, sem vida, sufocante.)

– O proprietário do apartamento que locamos resolveu vendê-lo e ficamos com ele.

– Então… então você ficou no apartamento que já morava?

– aham.

– Ah bom!! Achei que fosse alguma coisa com o meu apartamento!!!

– …

– E você mora aqui perto?

– Não! 

Paguei minhas compras, joguei correndo dentro do carro antes que ela voltasse e voltei para casa pensando obsessivamente em duas coisas: não volto mais nesse supermercado. E tenho pena do marido dela. (RM)

Desaforo

Quero crer que ontem investi em educação. Deixei 1680 reais na papelaria da escola. 34 livros didáticos, só para o primeiro ano do ensino médio. Fora todos os cadernos, canetinhas, estojo, réguas, etc. A nova moda é o ‘combo de literatura’, uma caixa com 7 fascículos. Claro que não podem ser vendidos separadamente. Outra novidade: sociologia e filosofia, que já chegam ‘causando’, com livros assustadores. Tenho a impressão que estou sendo enganada. Que educação não deveria rimar com extorsão.  E nem com lesão na coluna. Sou obrigada a comprar e minha filha obrigada a carregar. Enfim, espero que chegue logo o futuro brilhante. Por enquanto o que me conforma é relembrar – e ainda prestigiar- a deliciosa sensação de estrear o material da escola, tudo novinho em folha, todos os anos. Pena que fique cada vez mais amarga essa lembrança que é tão doce.   (RL)

Vazio

Tem dias que quero me arrumar, ir para academia, usar salto. Tem dias que quero ler um livro, fazer curso, assistir jornal. Tem dias que quero conversar com as amigas, quero rir, trocar e-mails. Tem dias que quero aproveitar o sol, caminhar, sentir a natureza. Tem dias que quero ser uma boa filha, uma boa mãe, uma boa esposa. Tem dias que quero ficar jogada assistindo filme, ouvindo histórias, comendo pipoca. Tem dias que quero planejar, organizar, fazer. Tem dias que quero experimentar uma receita, um restaurante, uma sobremesa. Tem dias que quero resolver os problemas, os desentendimentos, virar a página. Tem dias que quero cortar o cabelo, fazer massagem, pintar a unha. Tem dias que quero ir para a praia, para Paris, dar a volta no mundo. Tem dias que quero aprender, estudar, trabalhar, escrever. Tem dias que não quero nada! (RM)

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