A identidade de cada um

Texto da minha filha, Isabella Moreira. (RM)

Fui ver a exposição do Steve McCurry e dei de cara com a foto dessa menina Afegã. Fiquei tão impressionada com esses olhos que depois fui pesquisar um pouco sobre o Afeganistão. Antes de falar sobre o Afeganistão, quero falar um pouco sobre minha família. Somos em 5: meu pai, minha mãe, minhas 2 irmãs e eu. A Giulia minha irmã mais nova tem 10 anos. Ela tem cabelos compridos que vão até cintura. É o cabelo mais bonito que eu já vi. Ela cuida do cabelo sozinha e também gosta de cuidar das unhas que estão sempre compridinhas e lixadas. Sempre que pode, usa vestidos com florzinhas ou saias rodadinhas. Adora brincar de boneca e de jogos  com as amigas. Além disso, é a criança mais estudiosa que eu conheço. Só tira A e está sempre lendo. Lê livros e notícias o dia inteiro. Quando os amigos da escola faltam aula ou não anotam a lição, é para ela que eles ligam. Esses dias eu queria uma saia (tipo bailarina, dourada, A-MA-ZI-NG) da Zara e ela não me deixou comprar por conta do trabalho escravo. Também não podemos mais comer no Mc Donald´s pelo mesmo motivo. Nós temos muito orgulho dela. Mas se nós morássemos no Afeganistão, seríamos motivo de vergonha. Lá as famílias que não tem meninos são discriminadas. Se nós morássemos lá, meus pais cortariam o longo cabelo da Giulia. Ela não usaria mais um vestido de florzinha e sim um terno. Ela não poderia mais brincar de boneca com amigas. E ela não se chamaria mais Giulia. Seria Pedro, João, Antonio. Para deixarmos de ser uma vergonha, meus pais teriam que transformar a Giulia em um menino.  Por mais que continuasse existindo, a Giulia estaria morta. Lá no Afeganistão todos sabem quando uma menina é transformada em menino. Todos fazem parte desse crime. Fiquei pensando que esse mesmo crime acontece em vários lugares do mundo, inclusive no Brasil. Há 3 anos trabalho com teatro musical, comecei com 9 anos. Conheci muitas pessoas, crianças, adolescentes e adultos. São pessoas que trabalham duro, que correm atrás de um sonho e que na maioria das vezes tem vários empregos para se manter. São pessoas que eu amo e admiro muito. Não sei dizer quantos, mas muito são homossexuais. Muitos também foram mortos pela família. Outros foram mortos pelos amigos. No meu colégio vejo crianças e adolescentes sendo mortos quase todos os dias. Eles são chamados de bichinha, viadinho, boiola. Crianças e adolescentes que são como eu, como qualquer outro, que tem sonhos e esperança de viver em mundo melhor. Crianças que não tiveram escolha, nasceram meninas no Afeganistão ou homossexuais em qualquer parte do mundo. Crianças que são mortas todos os dias pela família, pelos vizinhos, pelos amigos, pela sociedade. Ninguém pode escolher nascer menino, menina, branco, negro, hetero ou homossexual. Mas todos podemos escolher: quantas crianças teremos que matar para aceitar a identidade de cada um?

Categorias: Uncategorized

Autor:reparei

"Se podes olhar, vê. Se podes Ver, repara." (José Saramago)

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17 Comentários em “A identidade de cada um”

  1. Ricardo
    23/01/2012 às 21:01 #

    É uma canção do Bob Dylan. A-MA-ZI-NG.

  2. Roberto Uchoa Alves de Lima
    23/01/2012 às 21:01 #

    Isabella,
    Adorei seu texto. Também fui na exposição maravilhosa desse grande fotógrafo que consegue trazer-nos as imagens que desencadeiam esse tipo de reflexão madura que você fez. Sugiro que você assista o filme TOMBOY, que vi ontem e trata exatamente desse assunto. Não vou contar mais nada, vá ver o filme !
    Mais uma vez, Parabéns.
    Roberto

  3. Luciana Südickum Raymundo Laska
    23/01/2012 às 21:01 #

    Isabella,

    Parabéns pelo seu texto, por sua reflexão e pela coragem de dizer coisas que muitas vezes as pessoas “matam” dentro de si por medo…..

    Parabéns a sua linda, talentosa e inteligente família!!!!

    Beijos

    Luciana e família

  4. Clarissa Laurence
    23/01/2012 às 21:01 #

    Bela reflexão, Bella! É importante fazer todo mundo pensar também!
    Parabéns!!
    Beijo

  5. 23/01/2012 às 21:01 #

    Maravilhoso! De resto estou sem palavras, mas aqui dentro estou sentindo. E muito!

  6. Rafael Hercowitz
    23/01/2012 às 21:01 #

    Bella, parabéns! Esse texto realmente me tocou, eu e outras muitas pessoas!
    Voce tem toda a razão! Muitos sao mortos hoje em dia!! Vice tem sorte de ter a familia e amigos ( como euuu rsrs) maravilhosos e que realmente te amam e nunca vao te trocar por nada nem te matar!!
    Seja qual for o caminho que voce escolher estaremos todos la te apoiando deixando voce VIVER!!

    Parabens de novo

    Bjs Rafa

  7. Simone Momo
    23/01/2012 às 21:01 #

    Como eu te amo,amo suas palavras a forma q vc se expressa, a maneira q vc vê o mundo ,dentro do seu interior, do seu mundo interior , tao povoada, tao situada….affe como eu te admiro ! Bjs de saudades , mas muita mesmo !!!

  8. Helenice Ap. Mathias
    23/01/2012 às 21:01 #

    Bella, estava sentindo falta de seus comentários sempre tão cheios de realidade, inteligência e comédia. Mas este texto, pucha vida, você surpreendeu, diz coisas que muitos adultos não reconhecem e mesmo que soubessem dessa verdade, não teriam a coragem de expor tão bem quanto você. É bem mais fácil virar as costas, fingir que não vemos, as verdades da vida. Você realmente tem vários DONS e um deles é saber mexer com o coração das pessoas com o que escreve. Parabéns querida, pela coragem, pela inteligência e principalmente por ter esta sensibilidade. Você tão jovem e tão avançada nos pensamentos. Te amo querida. Te dou uma sugestão, guarde bem todos os seus escritos, pois tenho certeza que um dia pode virar um livro de uma escritora muito precoce. Mil beijos no seu coração.

  9. Lais
    23/01/2012 às 21:01 #

    Que bom saber que jovens maravilhosas como você existem!!! Parabéns Bella,
    sua percepção da realidade é impressionante!

  10. 23/01/2012 às 21:01 #

    Nós, os modernos ocidentais, achamos que não ter um menino não é razão para vergonha, mas devemos respeitar as culturas orientais.
    Acho errado as barbáries que eles cometem, sobretudo contra as mulheres, mas o que fazer se a própria religião insiste nisso? Somente muita diplomacia e entendimento nosso para levar o Renascentismo para aquele povo.
    Bom texto.

  11. 24/01/2012 às 21:01 #

    Um lindo olhar sobre o outro. Parabéns Isabella!

  12. 24/01/2012 às 21:01 #

    Muito bem escrito 🙂

  13. Daniela Santana
    26/01/2012 às 21:01 #

    Fiquei impressionada com esse absurdo, mas especialmente pela sensibilidade do seu texto.

    Com pessoas como vc e sua irma, acredito num futuro melhor 🙂

    Parabens !!!

  14. Neysa Yane
    02/02/2012 às 21:01 #

    Parabéns pelo texto querida.
    Você tem uma visão do mundo que poucos da sua idade tem.
    Seus pais devem se orgulhar de vc e de sua irmã. Acredito que mesmo no Afeganistão eles se orgulhariam de vocês do mesmo jeito, poque a essência de vocês ainda existiria até naquela cultura. Essa foto da menina afegã, é a preferida dele.
    Soube que ele a procurou ha um tempo para fotografá-la novamente e se deparou com uma mulher sofrida, mas com o mesmo olhar. A sua essência ainda existia. Resistiu àquela cultura.
    Um grande beijo.

  15. Marco Simões
    02/02/2012 às 21:01 #

    Parabéns pelo texto… A foto que você colocou impressionou o MUNDO. Essa garota, hoje mulher, foi novamente fotografada pelo mesmo fotógrafo e novamente, mais uma foto dele impressionou o MUNDO. Pessoas como você fazem a diferença…

  16. Neusa Maria Jonas
    05/02/2012 às 21:01 #

    Que lição de moral para nós, para nossa sociedade ….

  17. Josy Carvalho
    15/02/2012 às 21:01 #

    O texto é rico em envolvimento,facilmente vi toda a situação como numa espécie de filme.Quem lê viaja!
    O que mais me chamou atenção foi a curiosidade,isso é o alimento do conhecimento.Que bom que Isabella buscou o conhecimento e nos permitiu desfrutar dessa interessante realidade.
    Melhor é saber que quando passando um conhecimento adiante ele se transforma em crescimento mútuo.
    Bacana,obrigada por partilhar.

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