Nem tudo o que reluz é ouro

Guy de Maupassant é um dos meus contistas preferidos pela forma como descreve e critica a sociedade. Um dos contos que mais gosto é O Colar de Diamantes que conta a história da Sra. Loisel, uma mulher bonita e de gosto refinado, mas que sendo pobre, não teve outra alternativa a não ser casar e viver modestamente com um escriturário. Em certa altura dos acontecimentos eles são convidados para um baile e ela não tem o que vestir. Convence o marido a lhe dar uma quantia razoável – 400 francos – para um vestido novo. Poucos dias antes do baile, com o vestido pronto, ela ainda estava amargurada. Pareceria pobre em meio às mulheres ricas se não usasse nada no pescoço. O marido sugere flores, deixando a esposa ainda mais exasperada. O homem então lembra que a mulher tem uma amiga rica, a quem poderia pedir uma joia emprestada. Ela assim o faz: vai para o baile com vestido novo e com o colar de diamantes da amiga. Linda, elegante e sedutora, a noite foi dela. Esse conto é do final do século XIX. Homens e mulheres que ostentam sempre fizeram parte da sociedade. Val Marchiori me choca, me envergonha, mas infelizmente, não representa nenhuma novidade. Convivemos com quem ostenta status, dinheiro, cultura, poder…diariamente. Em maior ou menor escala. As Senhoras Loisels da vida. Aliás, se me permitem, vou contar como acabou a história: ao chegar em casa depois do baile, foi dar uma última olhada no seu visual triunfante. O que se ouve é um grito de pavor: o colar havia sumido. Lembra que até o último minuto do baile estava com ele, possivelmente o perdera no caminho. O marido refaz o trajeto, sem sucesso. O colar fora perdido. Sem alternativa, compraram um colar novo, de 40 mil francos, um valor muito acima das suas parcas condições. Para pagar perderam tudo o que tinham, fizeram empréstimos, trabalharam dia e noite. Ela lavou pratos, esfregou o chão, lavou roupa, tirou lixo, carregou água, fez todo o tipo de serviço. A mulher linda, elegante, sedutora era apenas uma lembrança. Ela tornou-se rude, desgrenhada, grosseira. Ao cabo de dez anos quitaram a dívida. Certo dia, caminhando pelo parque para descansar do trabalho da semana, encontrou a amiga de quem emprestara o colar. A amiga não a reconheceu, dada a brutalidade da sua aparência. Resolveu contar, uma vez que o colar já estava pago, que a culpa dela ter se transformado nessa mulher rude era o colar que ela havia lhe emprestado. A amiga, comovida, toma-lhe as mãos e lhe diz: o colar era falso, valia se muito 500 francos… (RM)

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Autor:reparei

"Se podes olhar, vê. Se podes Ver, repara." (José Saramago)

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um comentário em “Nem tudo o que reluz é ouro”

  1. Cris Herold
    14/03/2012 às 21:01 #

    Adorei! Só não concordo que se ostenta cultura, porque aqueles que a têm de verdade não o fazem… faz parte de tê-la!

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