arquivo | março, 2012

Questão de sobrevivência

A última vez que ela viajou pra fora do país foi em 1998. Está um pouco sem prática então, pra deixá-la à vontade, eu disse que é perfeitamente normal que surjam ‘inseguranças’. Quis saber se hoje em dia ainda pode levar dinheiro vivo ou só cartão de crédito. A pergunta seguinte: então quanto eu levo, assim, trocadinho? Depois, veio a dúvida sobre bagagem de mão. Até que ela estava atualizada sobre objetos pontiagudos e  produtos líquidos mas baixou uma preocupação em relação ao Metamucil*. Sem ele eu não sobrevivo! Ah sei lá, eles podem implicar com um remédio em pó! O tema medicamentos continuou incomodando. E todas as pílulas que eu tomo todo dia? Melhor despachar na bagagem normal né? O bom é que no fim da conversa ela teve uma ideia que trouxe grande alívio. Já sei! Antes de embarcar eu tomo 2 copos de Metamucil e pronto. Eu não falei nada, só torço para que o vôo esteja tranquilo, sem fila pra escovar os dentes. Ema, ema ema…(RL)

*Metamucil -Ajuda a manter a regularidade intestinal. Hihihi

Sem reservas

Quando o assunto é férias, a gente vive com um pé no presente e outro bem lá na frente. Por exemplo, se eu quiser viajar em julho tenho que reservar e comprar praticamente um ano antes. Meio estranho esse ‘job’ de agarrar o futuro desde já, não acham? Sou obrigada a  ter certeza antes mesmo de ter vontade, forçada a escolher um assento no avião, um quarto no hotel, e pior: meu estômago deve se preparar, em 20 de março, a sentir vontade de comer ‘aquela’ massa no dia 20 de julho, depois marcar o restaurante antes que seja tarde. Embora eu ache legal curtir antecipadamente um passeio, detesto perder o direito de improvisar, pelo menos de vez em quando. Há uns 3 anos atrás, viajamos de moto pela Sardenha. Chegamos numa cidadezinha chamada Arbórea no final do dia, sem reservas. Tentamos 2 ou 3 hotéis e nada. Já escurecendo, restou um que parecia uma colônia de férias bem decadente. O quarto era feio que dói e mais tarde descobrimos que o jantar seria pizza ou pizza, num terraço totalmente vazio e ventoso. Que jeito. Pedimos um vinho e…a tal da pizza revelou-se  deliciosa, mereceu até uma segunda garrafa de vinho. Rimos muito e o improviso que começou mal terminou ótimo. Com certeza essa acomodação meia boca e o jantar surpresa ficaram como uma das lembranças mais divertidas da viagem.  Não que eu dispense um bom hotel mas, nesse caso, trocamos o conforto pré agendado por uma boa e inesperada gargalhada. Já valeu.  (RL)

Um pequeno coro de 10 mil vozes

Fim do mundo

Sempre acreditei que o fim do mundo aconteceria por conta do aquecimento global. Escuto isso há anos. Mas aí vejo essa entrevista* “Se os marcianos fossem comprar a Terra, o que fariam?’, pergunta Luis Stuhlberger para a pequena e selecionada plateia de investidores e economistas. ‘Eles pagariam pelos recursos naturais e pelo conhecimento humano, que são bens importantes. Mas certamente não pagariam nada pelo dinheiro do planeta, porque o que existe em endividamento é maior do que em ativos”, diz. Que o mundo corre para um colapso financeiro não é segredo pra ninguém. Mas daí a imaginar um marciano regateando nosso planeta é ainda pior que o fim do mundo. Nessa dança das cadeiras, entre o aquecimento, o endividamento e o marciano, nada me põe mais medo que as crianças de hoje. Tenho muito medo dessa geração. A cada reunião no colégio o aquecimento, o endividamento, a desigualdade, se tornam pequenos. E fico com essa sensação que o fim do mundo não está assim tão longe, basta imaginar essas crianças dominando o planeta. Nessas reuniões, a única coisa que me vem a cabeça é que erraram na previsão: em 2012 o mundo não vai acabar. 2012 é apenas o começo do fim. (RM)

*Trecho da reportagem “Na próxima crise, o que vai perder valor é o dinheiro”, afirma Stuhlberger, escrita por Pedro Carvalho

Tesouro da juventude


Minha avó materna nunca se interessou por cozinha. Foi da irmã dela, a Tia Julieta, que minha mãe herdou o ‘gosto’ e as melhores receitas que alguém pode ganhar, um verdadeiro tesouro. Eu era bem criança mas essa é uma daquelas lembranças impregnadas, que não se apaga nunca: a fornada de panettone, o panelão de lemon cheese, os pãezinhos amarelos de batata. Meu avô era de família inglesa. As receitas que eu guardo até hoje tem esse charme da dupla nacionalidade. Tem quindim de aipim, tem biscuit, coxinha de galinha e strawberry shortcake. No caderno transcrito à mão, que infelizmente minha mãe não conseguiu terminar, a página que eu mais gosto é a do bolo de coco. Só porque ela escreveu, entre parênteses, Renata adora!  (RL)

Frases inesquecíveis do cinema

Ontem, em uma das matérias que assisti sobre os 40 anos do filme O Poderoso Chefão, vi a cena com a famosa frase Farei uma proposta que ele não poderá recusar. Me empolguei e resolvi fazer uma lista com as primeiras frases de cinema que me viessem à mente. O resultado foi esse: (RM)

 

Jamais passarei fome novamente. (…E o Vento Levou)

 

 

Meu nome é Bond. James Bond. (007)

 

 

Why so serius? (Batman, O Cavalheiros das Trevas)

 

ET telefone minha casa. (ET)

 

 

Nós sempre teremos Paris. (Casablanca)

 

 

Tony, I´m scared. (O Iluminado)

 

 

Carpe diem. (Sociedade dos Poetas Mortos)

 

 

Houston, we have a problem. (Apollo 13)

 

 

Eu vejo pessoas mortas. (Sexto Sentido)

 

 

There´s no place like home. (O Mágico de Oz)

 

 

Pede pra sair. (Tropa de Elite)

Tolerância zero

Entre todas as grosserias que uma pessoa munida de celular pode cometer, a mais desprezível na minha opinião é quando ela acha que pode enviar mensagens, filmar e fotografar durante um espetáculo de teatro. Quem faz isso é tão cara de pau que é capaz de dizer que não era ele quando o vigia da sala vem lhe chamar a atenção. Pois é, minha filha foi assistir a peça do Gianecchini ontem à noite e, exatamente na poltrona em frente à dela, aboletou-se um elemento dessa espécie. Pra completar, na fileira de trás tinha outro ser humano incrível,  que achou bacana ficar amassando sua garrafinha de água em cena aberta. Como ninguém quis engrossar, os folgados continuarão desrespeitando atores e plateias, até que algum vigia leve a cabo a sua função. Uma vez, no bar de um hotel em Nova York, a cantora não teve dúvida: interrompeu a música e falou para o grupo de ‘ladies’ ao nosso lado que elas poderiam conversar bem melhor lá fora. Saíram as 4, com cara de xuxú. Assim que eu gosto. The american way of Tolerância Zero. (RL)

     Esse video é uma colaboração do meu amigo João Victor Pereira. Adorei!!

Nem tudo o que reluz é ouro

Guy de Maupassant é um dos meus contistas preferidos pela forma como descreve e critica a sociedade. Um dos contos que mais gosto é O Colar de Diamantes que conta a história da Sra. Loisel, uma mulher bonita e de gosto refinado, mas que sendo pobre, não teve outra alternativa a não ser casar e viver modestamente com um escriturário. Em certa altura dos acontecimentos eles são convidados para um baile e ela não tem o que vestir. Convence o marido a lhe dar uma quantia razoável – 400 francos – para um vestido novo. Poucos dias antes do baile, com o vestido pronto, ela ainda estava amargurada. Pareceria pobre em meio às mulheres ricas se não usasse nada no pescoço. O marido sugere flores, deixando a esposa ainda mais exasperada. O homem então lembra que a mulher tem uma amiga rica, a quem poderia pedir uma joia emprestada. Ela assim o faz: vai para o baile com vestido novo e com o colar de diamantes da amiga. Linda, elegante e sedutora, a noite foi dela. Esse conto é do final do século XIX. Homens e mulheres que ostentam sempre fizeram parte da sociedade. Val Marchiori me choca, me envergonha, mas infelizmente, não representa nenhuma novidade. Convivemos com quem ostenta status, dinheiro, cultura, poder…diariamente. Em maior ou menor escala. As Senhoras Loisels da vida. Aliás, se me permitem, vou contar como acabou a história: ao chegar em casa depois do baile, foi dar uma última olhada no seu visual triunfante. O que se ouve é um grito de pavor: o colar havia sumido. Lembra que até o último minuto do baile estava com ele, possivelmente o perdera no caminho. O marido refaz o trajeto, sem sucesso. O colar fora perdido. Sem alternativa, compraram um colar novo, de 40 mil francos, um valor muito acima das suas parcas condições. Para pagar perderam tudo o que tinham, fizeram empréstimos, trabalharam dia e noite. Ela lavou pratos, esfregou o chão, lavou roupa, tirou lixo, carregou água, fez todo o tipo de serviço. A mulher linda, elegante, sedutora era apenas uma lembrança. Ela tornou-se rude, desgrenhada, grosseira. Ao cabo de dez anos quitaram a dívida. Certo dia, caminhando pelo parque para descansar do trabalho da semana, encontrou a amiga de quem emprestara o colar. A amiga não a reconheceu, dada a brutalidade da sua aparência. Resolveu contar, uma vez que o colar já estava pago, que a culpa dela ter se transformado nessa mulher rude era o colar que ela havia lhe emprestado. A amiga, comovida, toma-lhe as mãos e lhe diz: o colar era falso, valia se muito 500 francos… (RM)

Chiniqueiro livre

Pensa  numa pessoa dirigindo em São Paulo, 6 da tarde, aquele trânsito uma beleza e, ao invés de prestar atenção na janela pra fora, ela espia pra dentro e então, bem no fundo, sem nenhum critério, encontra essa palavra estranha – chiniqueiro livre – e por causa dela, da palavra, sente uma excitação, uma alegria,  vontade de gritar chiniqueiro livre! bem alto e antes dos outros, no corre corre que não é esse do asfalto, é o do esconde-esconde, tão longe mas tão longe  dessa rua cheia de gentecarrosluzes que seria impossível lembrar, não fosse o acaso, talvez o descuido, o instante em que o tempo voltou, até bater de frente no chiniqueiro livre, assim do nada, só pra me deixar feliz feito criança, durante o minuto ou dois antes de o farol abrir.  (RL)

Para melhor ou para pior

Ontem assisti novamente Meia Noite em Paris e fiquei pensando nessa história de acharmos que seríamos mais felizes em outra época. Sempre caí nessa cilada de acreditar que antigamente as pessoas eram mais felizes e que tudo era mais fácil. Nunca pensei nisso racionalmente, era apenas um sentimento que carregava.  Pensando melhor, concluí que é uma besteira sem fim. Onde quer que a gente esteja, sempre seremos um misto de ideias, anseios, vontade e melancolia. E tanto podemos ser felizes quanto amargurados, depende muito mais de nós que de qualquer outra coisa. Falando nessas concepções fantasiosas que criamos, leio agora a biografia do Steve Jobs e uma passagem me chamou atenção: Vi gente na Apple que fez muito dinheiro e então passou a achar que tinha de viver de maneira diferente. Uns compraram um Rolls Royce e várias casas, todas com administradores, e aí contrataram alguém para administrar os administradores. As esposas fizeram cirurgia plástica e viraram essas figuras esquisitas. Não era assim que eu queria viver. É louco. Prometi a mim mesmo que não ia deixar esse dinheiro estragar minha vida. Pode parecer sem relação, mas para mim faz muito sentido essas duas histórias. Independente da era, do lugar, do status, sempre seremos fruto da nossa essência. Para melhor ou para pior. (RM)

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