Como se não houvesse o amanhã

Na década de 1920 o jornal francês L’Intransigeant contava com a colaboração eventual de celebridades da época para responder algumas questões. Essa pergunta foi feita para Proust em 1922:

Um cientista americano anuncia que o mundo vai acabar, ou pelo menos que uma grande parte do continente será destruída, e de maneira tão repentina que a morte será certeira para centenas de milhões de pessoas. Em sua opinião, caso se provasse verdadeira, que efeitos essa previsão causaria sobre as pessoas entre a confirmação da notícia anteriormente mencionada e o momento do cataclismo?

Acho que, de repente, a vida nos pareceria maravilhosa se estivéssemos ameaçados de morte como o senhor diz. Pense em quantos projetos, viagens, casos de amor e estudos a vida oculta de nós, tornando-os invisíveis por causa da nossa preguiça, que, certa de um futuro, adia-os incessantemente.

Mas, sob a ameaça da impossibilidade eterna, tudo isso voltaria a ser lindo! Ah! Se o cataclismo não acontecer desta vez, não deixemos de visitar as novas galerias do Louvre, de nos jogar aos pés da Srta. X, de fazer uma viagem à Índia.

O cataclismo não acontece e deixamos de fazer tudo isso porque voltamos ao âmago da nossa vida normal, no qual a negligência arrefece o desejo. Mas não deveríamos precisar do cataclismo para amar a vida hoje. Seria suficiente pensar que somos humanos e que a morte pode acontecer esta noite.

(RM)

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Autor:reparei

"Se podes olhar, vê. Se podes Ver, repara." (José Saramago)

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