A velhice

Como a gente faz pra descobrir que está ficando velho? – perguntou minha filha. Demorei um tempo para responder e ela foi me dando opções: é quando o cabelo fica branco? Quando tem que usar óculos? Dentadura? É quando a gente esquece as coisas? Quando fica surdo? Então mãe, como a gente sabe que tá ficando velho?

Responder o quê?  Idade? Estado de espírito?

Argumentos vão, argumento vem, definição nenhuma. Entre uma coisa e outra, lembrei dessa crônica. Se descobrir velho deve ser assim: sem idade, sem histórico. Nada mais que uma circunstância. (RM)

Descobri que eu estava velho há muitos anos, num metrô de São Paulo. Foi assim: o vagão estava lotado e não havia assento vago. Não liguei. Eu era jovem, pernas e braços fortes, podia fazer a viagem de pé, segurando um balaústre. Aí comecei a observar metodicamente o rosto das pessoas, coisa que gosto muito de fazer. Os rostos revelam mundo. Muitas crônicas me apareceram no ato de observar um rosto. Uma vez, tomando o meu café da manhã num hotel em Uberaba, fui comovido pelo rosto de um garçom já meio velho, magro, calvo, daqueles que não cortam o cabelo de um lado, para com seus fios compridos tentar disfarçar (inutilmente) a calva lisa. Aquele rosto me comoveu. E, quase que num segundo, apareceu na minha imaginação a trama de um conto. É sobre um garçom que trabalhava num hotel onde pilotos e aeromoças pernoitavam. Ele se apaixona por uma delas e a sua vida passa a girar em torno dos dias em que sua escala de vôos fazia com que aquela que ele amava secretamente dormisse no hotel. O garçom, servindo o café da manhã, dela se aproximava e respirava fundo para sentir o seu perfume. Até saiu pelas lojas de perfume, à procura daquele… Terminado o café ele recolhia copos e xícaras. Aí, furtivamente, na cozinha, quando ninguém estava olhando, os restinhos que haviam sobrado… Era como se ele a estivesse beijando. Mas, voltando ao metrô. De repente meus olhos encontraram uma moça que também olhava para mim, com um discreto sorriso nos lábios. Foi um momento de suspensão romântica: eu olhando para ela, ela olhando para mim. Aquele poderia ser o início de uma estória de amor por acontecer. Muitas estórias de amor se iniciam em estações. Mas então, naquele momento de suspensão romântica, ela fez um gesto delicado: sorrindo, ela se levantou e me ofereceu o lugar… Entendi então o sentido do seu sorriso: olhando para mim ela se lembrava do seu avô, velhinho tão querido… Compreendi que eu estava velho. Foi um momento de revelação. Desde então o meu pensamento volta sempre para a velhice.

Rubem Alves

Categorias: Uncategorized

Autor:reparei

"Se podes olhar, vê. Se podes Ver, repara." (José Saramago)

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2 Comentários em “A velhice”

  1. Ricardo
    16/04/2012 às 21:01 #

    vai lá para outro belo texto sobre o tema
    bj

    http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/02/me-chamem-de-velha.html

    • 16/04/2012 às 21:01 #

      Eliane Brum é mesmo incrível. Obrigada, adorei a leitura! Bj

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