arquivo | abril, 2012

Não basta ser pai – ou mãe

Ela é uma das melhores amigas da minha filha. Vem aqui em casa com frequência e sempre fica para dormir. Antes de deitar os pais telefonam e ela conta os detalhes do dia. Ontem foi golpeada pelo cansaço antes da ligação. Atendi a mãe e pra ela contei o quanto elas brincaram, o que ela comeu e que adormeceu assistindo filme. O pai ligou em seguida, queria saber se, apesar da brincadeira, conseguiram estudar para a prova de matemática.  Fui deitar pensando na sorte dessa menina. Os pais nunca se casaram, tiveram uma relação que não foi pra frente e dessa rápida união ela nasceu. É amada, cuidada e educada por esses pais que nunca dividiram um teto. Hoje quando acordou, contei para ela que os pais haviam ligado e o que havíamos conversado. Minha filha então perguntou: não cansa ficar contando tudo duas vezes? As vezes cansa. Mas eu acho a minha vida bem especial. (RM)

 (RM)

Está tudo ligado

No livro de Stephen King (11/22/63), o personagem principal viaja no tempo e consegue interferir em um assassinato, ocorrido no passado. Quando ele retorna ao tempo presente precisa redescobrir aquela história, agora modificada, sem o mesmo crime. Aí ele cai na real e percebe que mudou dramaticamente o curso da vida, não só das pessoas diretamente envolvidas naquela situação mas de várias outras. Coisas de Stephen King, o livro tem 800 páginas, cheias de ação. Agora de verdade, a gente vive questionando ‘se isso ou se aquilo’ fossem diferentes, bla bla bla  etcétera e tal. Por exemplo: se eu não tivesse comprado um cachorro possuído pelo demônio não estaria com as mãos e braços totalmente furados neste momento. Uma decisão simples como essa – a raça do cão– tem ‘n’ consequências além do sangue derramado. Acho até que as menores atitudes que tomamos, as decisões do dia a dia é que são a origem dos maiores desdobramentos da vida. Está tudo ligado. Isso é meio óbvio mas enfim, a pergunta que fica é: se os fatos ruins pudessem realmente ser alterados como ficaria o balanço geral, muitos anos depois? Será que o personagem vai se arrepender de ter mexido nos desígnios superiores? (RL)

A velhice

Como a gente faz pra descobrir que está ficando velho? – perguntou minha filha. Demorei um tempo para responder e ela foi me dando opções: é quando o cabelo fica branco? Quando tem que usar óculos? Dentadura? É quando a gente esquece as coisas? Quando fica surdo? Então mãe, como a gente sabe que tá ficando velho?

Responder o quê?  Idade? Estado de espírito?

Argumentos vão, argumento vem, definição nenhuma. Entre uma coisa e outra, lembrei dessa crônica. Se descobrir velho deve ser assim: sem idade, sem histórico. Nada mais que uma circunstância. (RM)

Descobri que eu estava velho há muitos anos, num metrô de São Paulo. Foi assim: o vagão estava lotado e não havia assento vago. Não liguei. Eu era jovem, pernas e braços fortes, podia fazer a viagem de pé, segurando um balaústre. Aí comecei a observar metodicamente o rosto das pessoas, coisa que gosto muito de fazer. Os rostos revelam mundo. Muitas crônicas me apareceram no ato de observar um rosto. Uma vez, tomando o meu café da manhã num hotel em Uberaba, fui comovido pelo rosto de um garçom já meio velho, magro, calvo, daqueles que não cortam o cabelo de um lado, para com seus fios compridos tentar disfarçar (inutilmente) a calva lisa. Aquele rosto me comoveu. E, quase que num segundo, apareceu na minha imaginação a trama de um conto. É sobre um garçom que trabalhava num hotel onde pilotos e aeromoças pernoitavam. Ele se apaixona por uma delas e a sua vida passa a girar em torno dos dias em que sua escala de vôos fazia com que aquela que ele amava secretamente dormisse no hotel. O garçom, servindo o café da manhã, dela se aproximava e respirava fundo para sentir o seu perfume. Até saiu pelas lojas de perfume, à procura daquele… Terminado o café ele recolhia copos e xícaras. Aí, furtivamente, na cozinha, quando ninguém estava olhando, os restinhos que haviam sobrado… Era como se ele a estivesse beijando. Mas, voltando ao metrô. De repente meus olhos encontraram uma moça que também olhava para mim, com um discreto sorriso nos lábios. Foi um momento de suspensão romântica: eu olhando para ela, ela olhando para mim. Aquele poderia ser o início de uma estória de amor por acontecer. Muitas estórias de amor se iniciam em estações. Mas então, naquele momento de suspensão romântica, ela fez um gesto delicado: sorrindo, ela se levantou e me ofereceu o lugar… Entendi então o sentido do seu sorriso: olhando para mim ela se lembrava do seu avô, velhinho tão querido… Compreendi que eu estava velho. Foi um momento de revelação. Desde então o meu pensamento volta sempre para a velhice.

Rubem Alves

Bike anúncio

Propaganda chata ninguém merece. Se uma marca não tem nada de diferente, interessante ou criativo pra dizer, deveria distribuir sua verba de comunicação em patrocínios, oferecendo alguma coisa concreta ao consumidor. Tanta coisa legal que merece incentivo caramba: teatro, música, cinema, esporte, meio ambiente…acho esse tipo de ‘relacionamento’ mais moderno e eficaz. Um exemplo de patrocínio super legal: o programa Bike Rio, ou melhor, as bicicletas do Itaú. A cidade está toda pintada de laranja, as bikes são um sucesso e o programa funciona muito bem. Além de transportar pessoas, as bikes carregam saúde, cidadania e simpatia, valores que  a gente alegremente relaciona com a marca do patrocinador. Eu, ‘enquanto turista usuária’ fiquei feliz da vida, pedalei por toda a praia de Copacabana, fui do Arpoador ao Leblon, achando ótimo levar o Itaú na cestinha. Quer propaganda melhor?  (RL)

Ai que vontade!

Não gosto muito de doces. Mas esses dias assisti o filme Julie & Julia e fiquei com vontade de  Creme Bávaro. Sabe aquela vontade que parece que sua vida depende daquilo? Desse tipo. Procurei a receita na internet. Nada. Busquei o livro Mastering the Art of French Cooking em algumas livrarias. Nada. O vendedor me garantiu que no livro Julie & Julia eu encontraria a receita. Encomendei o dito e adivinhe: nada. Pensei que ficaria na vontade. Mas não é que meu marido encomendou o livro para mim? (sim, ele é um amor). Nesse exato momento estou  desvendando o segredo do tal do creme. Logo mais vou me aventurar na cozinha. O único detalhe é que analisando os ingredientes, não vejo potencial para ser assim, suuuuper gostoso. Será que exagerei na vontade? E na expectativa?  (RM)

Mini férias


Rio de sol, de céu, de mar, de almoço no CT Boucherie, caminhada na praia e fim de tarde à beira d’água. Não conhecia esse restaurante do Claude Troigros, na Dias Ferreira. O lugar é um charme, bem pequeno, clima de bistrô. Você escolhe uma carne e os acompanhamentos são servidos em rodízio, em lindas travessas e panelinhas. Foi a primeira vez que vi meu marido repetir chuchu!! Se o chuchu é ótimo imaginem o resto. Uma delicia. De lá, caminhamos pela praia até o Arpoador, naquela temperatura de outono, perfeita. Não vou descrever o por do sol, tirei uma foto só, no celular, porque senão perderia o espetáculo ao vivo. Nada mau para uma quinta feira. Nada mau mesmo. À noite, fomos assistir Xingú, o documentário sobre os irmãos Villas Boas. Uma homenagem mais que merecida, eu gostei bastante, mas com certeza a história deles é ainda maior, mais complexa e mais vital para a humanidade do que o filme consegue contar. O close do índio Krenakarore não dá pra esquecer.  (RL)

Aborto

A maternidade somente será um ato humano alegre e responsável quando as mulheres forem livres para tomar, com inteira consciência e inteira responsabilidade humana, a decisão de se tornarem mães. Aí, e somente aí, elas serão passíveis de assumir a maternidade sem conflito, quando elas poderão se definir a si próprias não apenas como mãe de fulano, não apenas como criadas de crianças, não apenas como recipientes de fecundação, mas como pessoas, pois a maternidade é uma escolha livremente feita como parte da vida, livremente celebrada enquanto dure, para a sua criatividade então incluir mais dimensões, como ocorre com o homem.

É crucial, portanto, que vejamos essa questão do aborto não apenas como um expediente político. É parte de algo maior.

As vozes das mulheres estão sendo finalmente ouvidas, em alto e bom som, dizendo que o caminho passa pela questão do aborto tanto no sentido básico da moralidade como em seu novo sentindo político, como parte da revolução pela igualdade sexual, ainda por terminar.

Hoje, movemos a história adiante.

Fragmentos do discurso feito nos Estados Unidos, por Betty Friedan, em um encontro nacional pelo levantamento da então existente proibição do aborto. Em 1969. (RM)

Sopa de letrinha

Ontem passei a tarde no cabeleireiro, ‘em procedimento’. Haja café, revista e papo furado pra empurrar as intermináveis horas, obrigatoriamente sentada. Joyce, traz duas toalha preta! Pra distrair, comecei a reparar na sequência de pérolas, ou melhor, nas pérola que voam pelo salão. Cadê os menino? Sumiram os assistente? Não é um fenômeno isolado e nem novo, já faz tempo que nós paulistanos engolimos o ‘s’, em todo lugar, na fala e na escrita. Digo nós porque a consciência tem lá sua culpa; jogue a primeira pedra quem nunca falou vamo que vamo. Mas enquanto cortava, pintava e iluminava o cabelo (ou os cabelos?), prestei mais atenção e – fazer o que? –  me diverti. Você qué os reflexo bem fininho né? Que hora ela vai enxaguá? Joyce, pega lá as ampola pra mostrá pra ela. Vamo minha flor?

Vou-me embora para o Rio de Janeiro, o vôo decola as 12h55. Volto sábado, feliz, descansada, reabastecida de esses e erres. (RL)

Baú de recordações

Nesse feriado voltamos à Curitiba. E como lá deixamos todas as nossas coisas, resolvemos aproveitar o feriado para fazer uma triagem nos pertences. Tarefa chatíssima que protelamos até o último minuto. Começamos pelos livros, já que nossa filha mais velha tem pedido alguns títulos que ficaram por lá. Abrimos caixa por caixa, selecionamos alguns para trazer. Olhamos tantos outros que havíamos esquecido. Com os livros estavam pequenas recordações que guardo das meninas: os primeiros desenhos, os cartões, cadernos desde a Ed. Infantil, avaliações, os textos que mais gostamos, as agendas escolares. Do meu marido, flâmulas, estatística das equipes, relatórios, uniforme de clubes. Me dediquei as fotos. Cada um montou sua ilha, com papéis, cadernos e envelopes e fizemos uma volta ao passado. História que não pode ser contada, apenas sentida. Risos e lágrimas que se alternam. Uma mistura de felicidade, melancolia e saudade. Não trouxemos nada. Da eterna descontinuidade da nossa vida, a única certeza que temos é que continuamos escrevendo nossa história. E que ela deve continuar guardada na cidade que consideramos nossa casa. Páscoa é renovação. E a nossa não poderia ter sido mais intensa. E é com esse mesmo sentimento que desejo, ainda que atrasada, uma Feliz Páscoa a todos. (RM)

Bocada de Páscoa

O bacalhau ficou salgado, que droga. Foi preciso compensar no sábado com um papardelle ao ragu de linguiça que, modéstia à parte, dessa vez acertamos.  A Juliana fez “a” torta morna de chocolate, comemos com morangos e sorvete de creme. Ricardo levou uma caixa de mil folhas, compradas numa confeitaria em Pinheiros mas facilmente confundíveis com as da Brasserie Lipp. Desde quinta feira ficaram liberados os Ovos de Páscoa. Nos cafés das 3 manhãs tinha pão integral feito em casa, torradinho, uma perdição.

Pelo menos não bebi. Pelo menos corri 10 quilometros em volta do lago. Obviamente o saldo na balança ainda é negativo, precisaria ter corrido 20, mas estou pouco me importando. Fez um sol incrível, dormi super bem e, bacalhau à parte, a cozinha mandou caprichado. Hoje é segunda feira e vou me jogar na salada de alface, sem remorsos.  (RL)

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