arquivo | maio, 2012

Conduzindo a vida com maestria

TV ou I-Pod? Toda vez fico na dúvida sobre qual distração escolher, enquanto me esfalfo na esteira da sala de ginástica do prédio. Quase sempre é de manhã, quase sempre escolho menu/shuffle e a TV fica desligada. Mas ontem resolvi pesquisar. Apareceu o João Carlos Martins, no programa da Ana Maria Braga. Deixei o I-Pod de lado já que havia perspectiva de música na entrevista. Sua história como pianista, a paralisia na mão, a troca do instrumento pela batuta, o trabalho com crianças carentes, tudo isso eu já sabia. E acho incrível. Mesmo incapaz de tocar, ele permaneceu na música, foi até tema de escola de samba, regeu a bateria da Vai-Vai. Mas o programa era pra contar um milagre. O maestro foi operado pelo Dr. Paulo Niemeyer, neurocirurgião carioca conhecido, que implantou dois chips na cabeça do paciente: um japonês e outro americano.  Isso porque os japoneses acreditam que a região do cérebro que ‘comanda a mão’ é em um lugar, e os americanos em outro. Não ficou claro se, além do médico brasileiro, o mérito é dos japoneses ou dos americanos. Não importa. Vi e ouvi o pianista novamente, tocando com a mão esquerda, após 10 anos de imobilidade. Vi um homem renascendo, aos 75.  Arigatô, thank you.   (RL)

Link dessa notícia: http://zip.net/bbgH0P

Amizade

Quando entrou no colégio ano passado, minha filha já conhecia algumas meninas com quem fazia ballet. Tornaram-se melhores amigas. Além dessas meninas, fez outras amizades aleatórias. Nunca há nenhuma novidade sobre o colégio, mas muitas sobre os amigos e no trajeto escola-casa ela vai me atualizando. Entre essas amizades, todos os dias escutava alguma coisa sobre uma menina que sempre me pareceu mais sensível que as outras. Ela estava com dificuldade para se adaptar a puberdade, as mudanças com o corpo e na relação com os meninos. A dificuldade também estava presente nos estudos. Conversavam sobre essas mazelas, trocavam histórias, experiências e assim, foram  fortalecendo a amizade. Para o aniversário da amiga, minha filha escolheu uma tiara. É a paixão da menina. Quando fui buscá-la na festa descobri que a amiga tem Síndrome de Down. Na volta para casa fui escutando detalhes sobre o aniversário. Lá pelas tantas comentei que em todas as conversas que tivemos sobre a amiga, jamais imaginei que ela tivesse Síndrome de Down. Ah é, ela tem. E continuou contando sobre a festa. Ao contrário de mim, que enxerguei apenas a síndrome, minha filha enxergou uma amiga que possui os mesmos medos, anseios e dificuldades que qualquer outra adolescente. Conto essa história porque hoje ao chegar no colégio, quase um ano depois do aniversário, vi a amiga descer do carro. Colocou a mochila nas costas, voltou o rosto para o carro e ajeitou a tiara que minha filha escolheu para ela. Sorriu e entrou no colégio. (RM)

Ai que inveja?

Da casa do vizinho, da roupa da amiga, da viagem da prima. Dos 12 aos 18 parece que tudo o que é dos outros é muito mais legal. Os adolescentes estão sempre prontos pra renovar a decoração do quarto, pra viajar só com passagem de ida, pra comprar um acessório novo. Já os velhinhos não querem mudar absolutamente nada, até o cinzeiro fora do lugar de sempre, incomoda. Também não cobiçam mais muita coisa, o que não significa que sejam ranzinzas. Tá cheio de bisavôs e bisavós contentes com a rotina. Instável é o longo período intermediário da vida, quando não somos nem jovens insatisfeitos, nem idosos tranquilos.

Sou eu. Um dia acordo revolucionária, no outro quero deixar tudo como está. Passei uma semana achando Nova York o máximo dos máximos. Mas cheguei em casa e percebi que o meu cantinho, meu apê e a padaria da esquina é que são THE BEST. Aaaaah, são coisas da vidaaaa, e a gente não sabe se vai ou se ficaaaa. (RL)

A Virada da Galinhada do Atala

O D.O.M. foi eleito pela revista inglesa Restaurant, em 30 de abril,  o quarto melhor restaurante do mundo. O chef Alex Atala, proprietário do D.O.M. e homenageado da Virada Cultural, distribuiria 500 porções da Galinhada Dalva e Dito em uma barraca montada no Minhocão na madrugada do dia 06/05. A fila começou a se formar às 18h30 e se estendeu por 3km. Mais de 5 mil pessoas foram comer a Galinhada do Atala. As 500 porções previstas transformaram-se em 600 e obviamente não deram conta da demanda. Os felizardos que conseguiram a quentinha, saborearam o prato frio pois faltou estrutura de aquecimento (e de refrigeração) na barraca. As porções foram disputadas a tapa. Mesmo ciente que a Virada Cultura reuniria cerca de 4 milhões pessoas, a organização do evento não previu a demanda da Galinhada. Não organizou a fila, não obedeceu a ordem das senhas, não ofereceu estrutura para preparar nem mesmo as 500 porções. Alex Atala não conseguiu nem chegar até o quiosque: diante da confusão os organizadores ponderaram que colocariam o chef em risco. Ficou a 100 metros do local onde estava sendo servido o prato e teve que voltar rapidamente. De homenageado a fugitivo. A Virada do Atala. (RM)

Outra viagem

Ano passado, por coincidência, estive em Nova York nessa mesma época. Lembro que escrevi sobre as placas no Central Park, sobre a exposição da Van Cleef & Arpels, do Alexander McQueen e também sobre o documentário do Yves Saint Laurent. Viagem com marido, tranquilinho, só eu e ele pra decidir a programação.  Dessa vez foi com a filha de 15 anos, outro universo, outras vontades, principalmente, outra excitação.  Durante o dia o objetivo era conhecer os lugares que aparecem nos seriados de TV, e tirar muitas fotos, é claro. A noite, musical, musical, musical. Entre as lágrimas de emoção e os hot dogs ‘de esquina’ , deu pra levá-la ao Central Park, na High Line, nos restaurantes que eu gosto , até consegui tomar duas taças de vinho – yeah!. Topei o Museu de Historia Natural mas a fila no Moma não deu pra encarar. Bem que tentamos. Pena? Sim, pena. Mas se a Cindy Sherman visse a delícia de semana que passamos, acho que não só  ela nos perdoaria como também iria se inspirar. Alegria noite e dia também é cultura. (RL)

Não, eu não quero matar minha sogra

Então repense sua decisão. Ela não é uma inválida, não precisa de babá 24h horas por dia. Quer ajudá-la? Devolva a ela o que existe de mais precioso: independência. Contrate uma equipe que possa fazê-la andar como antes, ela precisa retomar a rotina com urgência. Comprar outro apartamento? Que loucura! Adapte o dela. Adapte, não transforme. Respeite cada cantinho, não destrua sua história, não cometa essa violência. Retire apenas o que de fato ofereça risco de outra queda. Converse sobre todas as mudanças, pergunte, questione, ela precisa fazer parte desse processo. Lembre-se: ela está lúcida e tem sede de viver. Tem apenas 75 anos e chegará facilmente aos 100 se puder manter as rédeas da própria vida. Ela  definitivamente não precisa de uma cuidadora. Precisa de liberdade, carinho, atenção. E, principalmente, de respeito.

Foi o que escutei do médico quando comentei, aflita, que estávamos pensando em contratar alguém para cuidar da minha sogra 24h por dia, todos os dias,  com a intenção de evitar novas quedas. (RM)

Overwhelming

Não canso de me impressionar com o show de vendas da Apple e da B&H. Essa última é uma loja gigante que vende tudo de informática, eletrônica e fotografia, aqui em Manhattan. Só vendo. O movimento das duas lojas é inacreditável sendo que a Apple não fecha NUNCA. Tudo funciona perfeitamente, ninguém espera pra ser atendido, quem já sabe o que quer entra e sai tão rápido que dá até pena de ir embora. Confiança é o que eles transmitem aliás deixam claríssimo. Pra me convencer a pagar 50 dólares por uma garantia de 2 anos o vendedor da B&H radicalizou: com esse seguro você pode atirar a câmera na parede e quebrar ela todinha, se ficar nervosa. Não será sua culpa. Os Brasileiros compram adoidado mas, mesmo com todo o ‘espetáculo’,  é difícil relaxar total. Saindo da B&H, com a minha sacola na mão, escutei uma moça suspirando, agoniada: Eu queria abrir pra ver se veio tudin mesmo! Nem com todo o jeitin mineiro ela teve coragem de conferir na frente dos home.  (RL)

Lei dos encontros

Há 11 anos morávamos em Boston. Na minha opinião a cidade mais charmosa dos Estados Unidos. Ontem passamos o dia lá , não deu pra matar a saudade mas deu pra gostar mais ainda. Todos os trilhos de trem antigos passaram para o subterrâneo e 100% da área que ocupavam foi transformada em parques e espaços de lazer. The Big Dig pode ter sido uma obra polêmica mas pra quem vê de fora, é o máximo.

Seguimos o manual da nostalgia e fomos a todos os lugares que costumávamos ir: os restaurantes, a escola, a praça em frente `a nossa casinha amarela.

Entre um reencontro e outro, aproveitamos pra visitar a escola onde minha filha planeja fazer um curso de férias, quem sabe um intercâmbio mais longo. Foi um dia perfeito: céu azul, lembranças deliciosas e o futuro bem ali, pronto pra ser alcançado. Me lembrei dessa música, dos Novos Baianos.  (RL)

Vou mostrando como sou   

E vou sendo como posso
  

Jogando meu corpo no mundo


Andando por todos os cantos


E pela lei natural dos encontros


Eu deixo e recebo um tanto

Passo aos olhos nus


Ou vestidos de lunetas


Passado, presente


Participo sendo o mistério do planeta.

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