arquivo | junho, 2012

Olha isso

Mulher tem uma coisa com espelho de elevador. Principalmente antes dos 20. É uma espécie de atração fatal. Não conseguem escapar do reflexo e sempre questionam o que veem. Se for o elevador de casa e ainda por cima aquele momento ‘pós produção’, aí é sangue no carpete.

Meu cabelo tá podre, olha isso!

Não sei…impliquei com esse brinco.

Olha a situação da minha testa!

Tem lápis preto? Esqueci de passar.

Esse corretivo não tá adiantando nada, que ódio!

Do nono andar(no caso) até o térreo dá pra repassar todo o look e espicaçar cada detalhe. Pena que seja impossível descrever a cena completa: a testa franzida, as entortadas de boca e mexidinhas no cabelo que acompanham o falatório.

Mulher tem dessas coisas. Com a maior naturalidade, transformam 30 segundos em frente ao espelho em cena tragicômica. Mas elas sabem e eu sei que no fundo estão se achando incríveis. O que a maioria não sabe, ou pelo menos esquece, é que 90% dos elevadores tem câmeras de vigilância. E que os porteiros devem adorar o filme grátis. (RL)

Falar é fácil

Imagine que seu filho está brincando com os amigos e que um desses amigos bate no rosto do seu filho com um galho, propositadamente. Ele perde  dois incisivos. Qual seria sua reação? No filme Deus da Carnificina os pais da vítima convidam os pais do agressor para uma conversa, a fim de remediar a situação. O que se tem é um dos melhores diálogos dos últimos tempos. Rápido, ácido, cético e sarcástico. O início da conversa é revestido de verniz. Mas aí começa um toma lá dá cá e o encontro vai tomando outras proporções. Primeiro um confronto entre casais sobre a vida em comunidade, o politicamente correto. Em seguida um confronto de todos contra todos: os sacrifícios do casamento, a diferença entre homens e mulheres, o engajamento em causas que não são nossas. O filme não é do tipo que muda nossa vida, mas o texto trabalha muito bem a questão da retórica e de como manipulamos os fatos em benefício de uma imagem que criamos. Vale o ingresso e a reflexão.  (RM)

Para guardar

Mãe de antigamente colecionava, numa caixa, desenho de filho, medalha de filho, foto, filme, boletim, bilhete, santinho da primeira comunhão.

Mãe do presente também coleciona, mas digitaliza tudo e faz back up.

Mãe com blog também coleciona, também digitaliza e faz back up,                                             depois posta e compartilha.  (RL)

Identidade

Ser você devia ser fácil

Um sorriso de lado

Um abraço apertado

Mas me parece o contrário

É tão complicado

Buscar lá no fundo, um discurso pro mundo

Mais fácil é olhar para o lado

Ver no outro o que é tão desejado

Ser você virou moda

“Sou mais eu” virou discurso

E de repente você se perde

Fica presa no percurso

Querer ser demais vicia

Você se torna ninguém

Uma falta de personalidade

Pra quem não preserva o que já tem.

(Julia Lima – junho 2012)

Vai Curintias!!!

Em mundo ideal os vizinhos seriam organizados por gênero musical e time de futebol. No melhor estilo cada um, com seu cada qual. Fosse assim, no meu bairro existiriam apenas torcedores do Brasil. E os demais seriam distribuídos entre os bairros do São Paulo, Santos, Palmeiras, Corinthians… Fanatismo e insanidade entre iguais. Já pensou sair na rua no dia seguinte ao jogo e, ao ver um vizinho com a camiseta do time, ser tomado por orgulho e não por um ímpeto assassino? É o meu sonho. Escrevo esse texto ao som de vuvuzelas, gritos e palavrões, vindos do prédio ao lado. O jogo acabou agora e não pense você que o barulho diminuiu. Eles querem mais. Querem o tchu e querem o tchá. Sabe-se Deus o que vem depois. Por isso repito: vizinhos deveriam ser organizados por time de futebol. E, ainda mais importante, por gênero musical. (RM)

Bobos da Corte

Chamam de inovação aquilo que nos tira da zona de conforto, que provoca, instiga e faz pensar. Pois então, fui numa exposição de decoração aqui em São Paulo, com ambientes assinados por diferentes arquitetos, todos importantes. Não gostei de nada. Alguns espaços estão OK mas a maioria é um pavor, de um mau gosto que mais parece provocação. Ou seria inovação? Um das salas cheira a naftalina, com sofás que devem ter levitado do Palácio de Versailles até aqui, nada a ver. Outra tem uma caixa de acrílico na parede com a palavra Orlistat, que é o principio ativo do Xenical. Com tanta ‘inovação’ ficou difícil definir qual a tendência do mercado. Os móveis expostos obviamente custam caríssimo e pra visitar a Casa também foi salgado. Saí um pouco indignada, questionando esse conceito de ‘vale tudo’ que vigora no mundo fashion. Over modernos ou over antigos, fica claro que alguns decoradores acham que eles são os reis, e nós os bobos da cocada.

A única coisa que gostei realmente foi essa casinha de cachorro, com sua almofada gema. Eu quero! (RL)

Entre uma coisa e outra

Tomar café da manhã em Paris e jantar em Abu Dhabi. Para um executivo internacional pode ser rotina mas para a maioria das pessoas não é.

No tempo dos vapores (navios, na linguagem de avó), nosso organismo tinha um belo e longo intervalo para processar a mudança de ares. Entre um lugar e outro havia a viagem, a viagem até a viagem.  Depois, quando trocamos os portos pelos aeroportos, ficou tudo vapt vupt.

Sempre penso nisso.

Dormir em Nova York, acordar no Brasil: é a coisa mais normal né? Sei lá, meu corpo acha esquisito. Demoro um pouco pra incorporar essa transição ‘à jato’. E a estranheza ainda piora se visualizo o mapa-múndi: Manhattan tão longe, aqui tão rápido, e de repente tudo completamente diferente.

Mas os aviões são tudo de bom, que idiota eu.

Vai ver hoje amanheci antiga, cheia de parênteses.

Fazer o que.

É como um parágrafo, que nos induz a finalizar uma ideia antes de começar a seguinte.

Fica um espaço.

Acho gostoso esse tempo do meio.  (RL)

Julgamento

Ela me contava a história em detalhes. O teor em si já era complicado, mas a maneira como descrevia deixava tudo ainda pior. Uma história triste, com pessoas conhecidas. Já reparou como algumas pessoas tornam a vida vulgar? Rebaixam os sentimentos e trazem a tona os fatos de forma torpe. Carregamos o bem e o mal e fazemos uso tanto de um quanto de outro. E é essa mescla que torna nossa existência complexa, contraditória, plena, interessante. Julgar é condição inata do ser humano. E ao julgar o outro temos a chance de reavaliar nossos valores. Julgar pode inclusive ser o início de uma jornada transformadora. Mas se o julgamento virar fofoca é porque nos julgamos melhores do que os julgados. Por isso me irritei com a história que me foi contada. Ouvi em detalhes como o relacionamento de um casal amigo está deteriorado. Não é assunto para contar com risinho no canto da boca. É assunto pra fazer pensar, pra fazer um exame de consciência e, se necessário, repensar nossa conduta. Julgar só vale a pena para  lembrar que somos humanos e que podemos errar. Não deveria ser usado como recurso para nos sentirmos superiores ou especiais. (RM)

No palco ele nem manca

Posso falar? Eu adorei. No palco ele consegue não ser o House e ainda assim ser o máximo. Ele, Hugh, é o cara.  O homem canta bem, toca piano e violão bem, é engraçado, carismático, tem uma banda incrível e um repertório muito legal. Nem precisava ser bonito mas pior que é. Bonito, alto, elegante, very British. Claro que se não fossem as 8 temporadas na TV, o show teria que ser num barzinho e não no Luna Park, pra 5 mil pessoas. Óbvio que ele não é o melhor cantor de blues do planeta,  mas sabe o que faz, compramos o CD e a noite valeu super. Agora engraçado foi ver a mulherada – de mamando a caducando – histéricas, salivando na plateia. Tinha uma lá que devia ter o que, no máximo 20 e poucos anos, nunca vi gritar tanto. Somando a cúpula careca e algumas linhas no rosto dá pra chutar que ele tenha mahomeno 55, por aí. Aposto quanto quiser que essa garota trocaria qualquer colega da faculdade pelo tio Hugh House. Tá podendo o cara, eu senti.  (RL)

(Meus videos ficaram péssimos mas ele cantou essa música igualzinho, com a roupa da foto)



Por supuesto

Palermo Soho é um ótimo lugar para se hospedar. E o hotel que escolhemos – Legado Mítico – é uma graça. Ao redor tem muitas lojinhas transadas, muitos restaurantes, cafés, tem dulce de leche no café da manhã, no almoço e no jantar. Aqui é a Vila Madalena portenha.

Mas Buenos Aires está meio triste, eu achei. Várias lojas e janelas fechadas. A cidade continua linda só que mais pobre e mais suja. Fomos ao Malba – Museu de Arte Latino Americana, as principais obras estão emprestadas. Ficou na vontade ver o Abaporu, Frida Khalo e Diego Rivera. A Recoleta que eu conhecia era agitada, com performances artísticas no parque e restaurantes lotados. El Caminito todavia é colorido mas também está caído. Na porta do Patio Bullrich quem fez sinal para o taxi e depois abriu a porta pra nós foi um garotinho de 5 anos, de nariz escorrendo. Passeando a pé o que mais se vê são  cachorros. Perros, perros e mais perros pelas ruas, praças e calçadas. Pra eles não tem nem frio, nem fome, nem crise.

Hoje tem jogão Brasil x Argentina e partida amistosa entre esses dois times é coisa que não existe. Perguntamos a um motorista qual o melhor clube daqui atualmente e ele, depois da risadinha irônica, respondeu:  calculo que Boca sea mejor, por fanatismo e porque los números cantan !  Rodando com esse senhor pela cidade ele fez questão de apontar onde mora o Messi( no prédio mais caro de Puerto Madero) e também o Caniggia(no Hotel Faena), nosso carrasco no Copa de 90.

Por supuesto, futebol é um santo remédio.  (RL)

Parada Gay

No próximo domingo teremos a Parada Gay em São Paulo. Nunca fui, apenas vi reportagens, fotos e afins. Tenho muitos amigos gays, mas não vejo nenhum deles representado na parada. Também não vejo nenhum deles representado em novelas. Nenhum dos meus amigos é assim tão estereotipado, tão alegórico, como esse Crô do Marcelo Serrado. Todo gay de novela é leve, engraçado, uma piada ambulante. Meus amigos não são uma piada, não são forçados e não vivem de trejeitos. Não são um personagem. São pessoas comuns. Acredito que a Parada traga muitos benefícios para a cidade em termos de faturamento, mas quais benefícios ela trouxe efetivamente para a galera LGBT? Não estou levantando bandeira, é apenas uma dúvida que tenho. Porque vejo esses meus amigos conquistarem muita coisa, mas legalmente eles continuam patinando. Pagam impostos, são pessoas de bem, vivem como qualquer outro cidadão desse país. E mesmo assim constroem uma vida que não é reconhecida pelo Estado e que é repudiada pela sociedade. A Parada mais me parece uma luta por tolerância, um grito de liberdade. Mas estamos no século XXI. Tolerância deveria ser página virada, os direitos deveriam estar assegurados e a Parada deveria apenas comemorar essas conquistas. Não contrário. (RM)

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